Estereótipos – todo mundo tem os seus

Hoje foi votado e aprovado o tão polêmico Código Florestal. Porém, não vou entrar nos meandros da legislação e discutir se a votação foi prudente ou não. Em grandes acontecimentos, o jornalismo vira a arena de disputa de ideias e fica mais clara uma estratégica argumentativa, que habita os periódicos diariamente: os estereótipos.

Foi só a discussão esquentar e  a imprensa simplificou a discussão, dividindo os discursos em apenas dois grupos, ruralista e ambientalista. Não, ao contrário do que o apressado leitor possa pensar, eu não criticarei a superficialidade das informações.

Quero mostrar que os estereótipos nada mais são do que uma estratégia para a construção retórica, da qual todos, em graus diferentes, fazem uso. Nilson Lage explica a repetição incessante dessa construção. Segundo o teórico, as pessoas utilizam os estereótipos, porque “tais modelos estão prontos; sua aceitação é garantida. Por isso, bastam alguns pontos em comum para que se funde um reconhecimento. É por esse meio que se instaura a generalidade do particular e as notícias tornam-se exemplos de algo sobre o que há consenso ideológico”.

Esteriótipos geram esteriótipos em um ciclo sem fim.

Um bom exemplo do uso dos estereótipos veio do professor Silvio Meira. Em entrevista para a CBN, ele afirmou que as discussões acerca do Código Florestal eram um embate entre a floresta e a agricultura. Ele não estava de todo errado, no entanto, ao generalizar, ele “empacotou” vários argumentos que se encontram no meio desses dois extremos.

O fato é que esse tipo de argumentação nunca terá fim, como explica o professor Felipe Pena. “A consciência dos estereótipos não me livra deles. E o pior é que essa é uma engrenagem multiplicadora, auto-reprodutiva. Estereótipos produzem estereótipos, em um ciclo interminável”.

O meu ponto com esse post é que, em cada discussão do dia a dia, nosso primeiro objetivo é encaixar os fatos nos nossos modelos ideológicos e tentar fazer prevalecer nossos estereótipos. Fazemos isso de forma instintiva. Minha proposta é revermos nossos discursos para evitar a perda de bons argumentos somente porque, na primeira impressão, parecem bater de frente com nossas convicções.

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7 pensamentos sobre “Estereótipos – todo mundo tem os seus

  1. Post altamente inteligente e filosófico. Muito bom!Fato do dia a dia que não percebemos. Qualquer participante de uma conversa se sente mais confortável ouvindo um estereótipo do que uma detalhada descrição de alguém ou de algo. Assim como para quem está falando é mais fácil encaixar um estereótipo do que gastar tempo e palavras descrevendo melhor.

    • Com certeza! Além disso, é uma estratégia argumentativa muito utilizada para fazer parecer que problemas complexos têm sempre apenas poucas interpretações. Valeu pela visita! Você é sempre bem vindo por aqui! Abração, fraterno comentador!

  2. E aê Pedro Vailadares!!!!

    Puxa, fico orgulhosa de ter um amigo tão inteligente. Seu blog são pílulas diárias de boas discussões com argumentos úteis. Parabéns.
    De fato, utsar estereótipos é uma prática mais comum do que pensamos ou imaginamos em nossa vã filosofia…hehehe E a maioria das pessoas nem aceita pensar sequer nos equívocos e preconceitos q estão por trás disso né…
    bjos

    p.s no texto vc usou a cerca… acerca é o correto
    = ) ficaadica…. :)))
    coisa de revisor chato bla bla bla bla

  3. Alto nível, Pedrão! O uso de estereótipos é uma muleta muito desavergonhada que acabamos usando sem pensar.

    É bom ter uma opinião formada ou um modelo ideológico sólido que sirva de base para opiniões acerca de assuntos variados, mas talvez mais importante ainda seja aprender a desprender-se desses modelos e enxergar as possíveis falhas que apresentam (já que um modelo universal de pensamento dificilmente servirá para todas as situações).

    É um exercício tão bom quanto difícil, mas que ajuda a evitar discussões vazias que terminem em “eu penso desse jeito, você pensa daquele… e é isso!”. Ouvir argumentos contrários às nossas muletas dói um pouco, mas ensina muito.

    Blog bom da peste! Abração!

  4. Grande xará! É exatamente isso. Instintivamente recorremos a nossas “muletas” ideológicas. É preciso consciência para combatê-las!

    Abraços! Volte sempre! Seus comentários sempre engrandecem as discussões por aqui!

  5. Pingback: Prós e contras dos tabus « Pedrovaladares's Blog

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