“Diretas Já” é seleção de 82 da política

“Grandes triunfos, por mais importantes que sejam, encerram-se no momento em que os deixamos em paz e seguimos em frente. Derrotas dolorosas são infinitas”

A frase acima é do jornalista André Kfouri, comentando a derrota da seleção brasileira de futebol na Copa de 1982. O time brasileiro simbolizava tudo o que o apreciador do futebol gosta de ver. A equipe acabou derrotada pela Itália nas quartas de final. Derrota que para muitos significou o fim do futebol ofensivo. No entanto, esse fracasso eternizou aquele time no imaginário dos torcedores.

Esse fato criou um fantasma que assombra todos os treinadores brasileiros a cada apresentação mais defensiva e menos vistosa da seleção. Como afirmou Kfouri, a derrota se tornou infinita, assim como o lamento. Essa idealização do passado pode solapar o presente. É o que aponta o escritor uruguaio Eduardo Galeano sobre a vitória da celeste olímpica na Copa de 1950. “Às vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta. Desde 1950, vivemos prisioneiros da nostalgia”.

Em 1984, a ditadura militar estava moribunda e um grande movimento, denominado “Diretas Já”, reuniu milhões de pessoas na luta pelo direito do voto direto para presidente da república. Apesar da incrível mobilização, a proposta foi derrotada no Congresso e a volta à democracia acabou sendo realizada por meio do voto indireto, que elegeu Tancredo Neves.

Na minha opinião, essa derrota das “Diretas Já” é uma espécie de seleção de 82 da política brasileira. Sempre que surgem casos de corrupção, o fantasma do movimento aparece. Com isso, parece que essa mobilização tornou-se insuperável. Como disse Galeano, virou âncora. Dessa forma, é como se toda mobilização atual já surgisse fracassada, pois nada chegaria aos pés das “Diretas”.

Outro movimento marcante, os “Caras-pintadas” é menos lembrado e por muitas vezes diminuído. Muitos dizem que grande parte dos que estavam ali não ligava para a política e queria apenas participar da “festa”. Talvez sejam tratados assim por terem atingido seu objetivo: o impeachment de Fernando Collor. Retomando Kfouri, “grandes triunfos, por mais importantes que sejam, encerram-se no momento em que os deixamos em paz e seguimos em frente”. Ou seja, a conquista dos “caras-pintadas” foi absorvida, a derrota das “Diretas Já”, eternizada.

É preciso ressaltar que nenhum movimento político é composto somente de virtudes. Muitos interesses escusos foram ocultados nessa idealização das “Diretas”. Esse processo, ao eu entender, explica o quadro político que temos atualmente.

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4 pensamentos sobre ““Diretas Já” é seleção de 82 da política

  1. Isso serve para o nosso dia a dia: Erros são sempre lembrados, acertos não. A premissa é a mesma, a “sociedade” só se lembra das derrotas e ignora as vitorias, o que é um ponto de vista interessante a ser analisado mais futuramente, ainda mais, se formos analisar no ambito politico, onde se cria um paradoxo, pois mesma que certo politico tenha “errado” como o caso do collor, a população simplemente ignora e vota nele. Segunda chance? Não! Ignorancia mesmo. Enfim, ótimo blog, acompanharei futuras postagens.

    • Helio, primeiramente, obrigado pela presença e pelas palavras elogiosas. você tem razão. Alguns casos emblemáticos de corrupção causam muita revolta, mas são passageiros. Logo ninguém mais lembra e voltamos e ver corruptos eleitos.

      Obrigado pela visita! Volte sempre!

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