A direita precisa de voz

No Brasil, após três eleições consecutivas vencidas pelo Partido do Trabalhadores (legenda de centro-esquerda), houve um esvaziamneto de partidos de direita. Por um desvio histórico, a expressão “direita” acabou sendo associada a grupos que apoiaram a ditadura militar e, posteriormente, a um ajuntamento de engravatados elitistas, que estariam alinhados com grandes multinacionais, relegando a parcela mais pobre.

Essa ideia acabou reforçada após o fatídico episódio no qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse para seu partido, o PSDB, abandonar o “povão”, situação que piorou depois que o mesmo FHC porpôs que a legenda adotasse um slogan em inglês (Yes, we care”!).

Dessa forma, por razões eleitoreiras, muitos simpatizantes de ideias mais conservadoras e voltadas à eficiência da iniciativa privada, aliada a diminuição da máquina pública e ao papel regulador do Estado, se intimidaram e passaram a apoiar políticas estatizantes.

Quem aproveitou para assumir a direita foram políticos com discursos racistas e moralistas, como alguns representantes de grupos religiosos ou de militares ultra-nacionalistas, como Jair Bolsonaro do PP do Rio de Janeiro.

Assim, uma parcela da população ficou sem quem a representasse, escondida no que a pesquisadora Elisabeth Noelle-Neumann chama de espiral do silêncio, que ocorre quando uma posição ideologicamente majoritária inibe o restante de expressar uma opinião contrária, excluindo-a da esfera pública.

Na minha opinião, essa situação leva a um empobrecimento do debate político. O confronto de ideias é salutar para a construção da sociedade. Para isso, é preciso que todos possam se manifestar livremente. A própria esquerda perde com o sumiço da direita, pois os partidos passam a adotar discursos muito semelhantes, levando o eleitor a crer que não há diferenciação programática entre as legendas. Dessa forma, para o bem do debate público, é necessário que haja um segundo grito dos excluídos e a direita volte a se manifestar. Assim, mesmo que seja para ser derrotada novamente, pelo menos terá marcado posição e enriquecido o embate político.

Anúncios

2 pensamentos sobre “A direita precisa de voz

  1. Muito bom Pedrão! Não sei se tem acesso, mas no caderno Aliás do domingo atrás saiu um debate parecido…o autor argumentava que havia uma possibilidade do PSDB (como principal partido de oposição) de só ser representativo a nível estadual, por conta de dois motivos: primeiro, esse silêncio de alternativas, e segundo, por sua falta de coesão, o que dificulta muito a articulação a nível federal…e no pacto federativo brasileiro, mesmo com muito governadores, ele vai acabar tendo que se alinhar com Brasília (é só ver o encontro simbólico do Alckmin com a Dilma).

    E gostei do conceito também, não conhecia; quer dizer, só na prática, numa escala menor, que é o predomínio do politicamente correto…(quem gosta de fazer piadas, ler, ouvir e etc., acaba percebendo como anda sendo um brincar com fogo, às vezes…)

    • Grande Jóbio! Obrigado pela presença sempre construtiva. Realmente, em um nível final, acabamos perdendo muito dos matizes políticos existentes. E isso é muito ruim, principalmente para partidos de esquerda, que se veem dentro do mesmo balaio de partidos conservadores e todos se dizendo socialistas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s