Sobre ciclos e crises

Teremos uma crise pesada no Brasil nos próximos anos. Pelo menos é o que apontam o economista Leandro Roque e o estrategista Paulo Vicente. O primeiro baseia sua previsão na teoria dos ciclos econômicos e o segundo, nos ciclos de Kondratiev.

A teoria dos ciclos diz que uma expansão artificial de crédito gera um desequilíbrio na economia e leva empreendedores a tomarem decisões equivocadas e adquirirem dívidas esperando um retorno maior a frente, que não virá. Como há uma expansão da base monetária (quantidade de dinheiro em circulação) sem lastro, os preços sobem demais, a moeda perde valor e os emprestadores não podem mais financiar os tomadores de crédito, assim, os empreendedores percebem que o retorno que esperavam não acontecerá e a economia entra em um período recessivo.

De acordo com Roque, o Brasil já está entrando no período de recessão. O problema, segundo ele, é que a expansão do crédito faz subir também o preço dos insumos e da mão de obra. “Quanto mais os preços dos fatores de produção sobem, mais desesperadas por novos empréstimos ficam aquelas empresas que deram início a projetos de longo prazo levadas pela crença de que o crédito seria farto e barato durante muito tempo, e que os lucros seriam fáceis.  O aumento dos preços — e, por conseguinte, dos juros — altera seus planos”.

Roque baseia sua análise nos dados sobre a expansão dos meios de pagamento fiduciários, que são aqueles que não possuem nenhum lastro. Esse meio aparece por conta do regime de reservas fracionárias, que nada mais é do que dinheiro criado por meio de alavancagem. Explicando por alto: os bancos partem do princípio de que nem todos os correntistas vão querer sacar todo seu recurso ao mesmo tempo. Assim, o banco mantém apenas uma parte do dinheiro em caixa e empresta o restante. Ou seja, guarda somente uma fração do depósito.

Em outras palavras, grosso modo, se você depositou R$100 e o banco tem em caixa somente R$10 (usando a diferença para fazer um novo financiamento), mas na sua conta continua constando os mesmos R$100, significa que há R$90 de dinheiro sem lastro, criado do nada. Agora imagine esse mesmo procedimento sendo feito com milhões de correntistas. Daí que surge o aumento da base monetária sem lastro que, segundo Roque, vai gerar a expansão artificial de crédito que depois levará a economia brasileira à recessão.

Já Paulo Vicente também prevê uma crise para o Brasil, porém com base em outra teoria, a dos ciclos de Kondratiev. O estrategista complementa sua análise por meio da teoria dos ciclos hegemônicos, que diz que toda potência após certo tempo entra em declínio para que outra possa ascender. Já a teoria dos ciclos de Kondratiev, também conhecida como ciclo da tecnologia, afirma que a humanidade passa por uma crise sempre que a matriz tecnológica é alterada.

Segundo Vicente, o período de hegemonia norte americana já está no estágio de declínio, assim como o ciclo tecnológico que teve início com a expansão da telecomunicação e da informática. A primeira teria fim aproximadamente em 2065 e a segunda em 2030.

“Supondo que a lógica dos ciclos se mantenha, a década de 2010 será de competitividade internacional crescente, e a década de 2020 verá crises generalizadas com guerras nas várias regiões do mundo, mas não parece ainda que haverá uma guerra de transição hegemônica. Não é objetivo deste texto especular sobre o futuro, mas sempre houve crises políticas e econômicas nos finais de ciclo no Brasil, isto sugere uma crise nacional na década de 2020”.

Podemos acrescentar às previsões dos dois pesquisadores a do economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, que afirma que a crise europeia irá durar até 2018. Além disso, outro grande comprador brasileiro, a China, passará nos próximos anos por um período de transição, que indica um modelo de indústria mais voltado para provimento do mercado interno, o que implicaria crescimento menor e menos importações brasileiras por lá.

Enfim, estamos passando por um momento bom, o país tem um desemprego baixo, razoável estabilidade econômica e política e boa visibilidade internacional. É preciso interromper um pouco a estratégia de estímulo ao consumo por meio da expansão do crédito e promover reformas que aumentem a produtividade, barateiem os custos de produção e ampliem a poupança interna. Caso contrário, teremos que fazer isso em condições precárias.

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4 pensamentos sobre “Sobre ciclos e crises

  1. Isto sem contar os gastos (gastos, pois investimento é outra coisa) desordenados em função da Copa e das olimpíadas… Vale lembrar do modelo grego, que entrou em profunda depressão após estes eventos e até hoje precisa de muletas e da caridade dos colegas do vizinho bloco.

    • Adriano, primeiramente, obrigado pela visita!

      Você tem toda razão. O problema vai se aprofundar tremendamente depois do endividamento com a Copa e com a Olimpíada.

      Melhor irmos nos preparando.

      Abraço e volte sempre!

  2. Não acredito no fim do mundo conforme nos diz a Profecia Maia, mas acredito em um fim do mundo econômico, onde todas (ou quase todas) as nações cairão em profunda depressão.
    Acredito também que poderá ocorrer o desmembramento de alguns países, revoluções e greves gerais.

    Tenho muito receio do crescimento da China. Por enquanto está tudo bem, mas será que no futuro não “criarão asinhas” e passarão a querer dividir o poderio bélico e econômico com os Estados Unidos e a Rússia.

    Quanto ao nosso país, se mudanças rápidas e drásticas não forem feitas, a inadimplência tomará conta e o caos se estabelecerá.

    Acredito que o crédito está muito fácil e por isso mesmo perigoso.

    Hoje mesmo passou em frente a minha casa, uma picape Nissan Frontier novinha em folha, fazendo comércio ambulante.

    • Célio, obrigado pela visita!

      Eu concordo em parte com você. Também acho que haverá inadimplência generalizada, mas creio que a China está atingindo o teto de crescimento. Além disso, o país sofre muita pressão social interna, pois há uma parcela majoritária da população que é extremamente pobre e vai querer uma fatia do bolo. Além disso, a tendência é que os países mais desenvolvidos, utilizando a tecnologia, voltem a produzir sua manufatura e passem a exportar para os chineses invertendo o fluxo e interrompendo o crescimento do gigante asiático.

      Volte sempre! Você é muito bem vindo!

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