A televisão no mundo dos semideuses

Lance_Armstrong_Tour_Of_California_2009_-_Flickr_large_verge_medium_landscape

Verdade seja dita, para a televisão o esporte é um produto, assim como uma novela. Por isso, para que essa mercadoria atraia consumidores, faz-se necessário a presença de esportistas de destaque. Contudo, só isso não basta, é preciso que os principais atletas sejam moralmente impecáveis para que possam tornar-se ídolos e atrair mais público.

Por essa razão, as reportagens e transmissões, especialmente na TV aberta, procuram sempre causar a impressão de que o sucesso no esporte está diretamente associado a uma conduta correta na vida pessoal. Assim, logo que um desportista alcança bons resultados e começa a atrair atenção e audiência, ele passa a ser retratado como uma grande pessoal, um exemplo a ser seguido.

Da crença do público no bom caráter do ídolo, é que surge a empatia que leva as pessoas a assistirem televisão. Mais audiência é igual mais dinheiro em caixa. Além da TV, as companhias também buscam se associar às estrelas de cada modalidade e, para aumentar as vendas, reforçam ainda mais o bom mocismo do atleta.

No entanto, é sabido que desempenho profissional não tem relação nenhuma com a conduta pessoal e vice versa. Por exemplo, uma pessoa pode ser um excelente escritor, vender milhões de livros e, ao mesmo tempo, ser um ser humano desprezível ou um arquiteto pode projetar prédios incríveis ao mesmo tempo em que bate na esposa.

O que acontece em outros campos profissionais acontece exatamente no campo esportivo. Porém, neste caso, isso acarreta perdas para outros segmentos. A televisão e as empresas não vendem o ser humana atleta e sim sua imagem e falhas morais depreciam o produto. Por isso, que quando esses esportistas cometem crimes ou falhas, os mesmos atores que os exaltavam como grandes exemplos, são obrigados a apedrejá-los  e condená-los à fogueira impiedosamente.

É o caso, por exemplo, de Lance Armstrong. Ele agora é retratado como um grande vilão em meio a esportistas honestos. Todos nós sabemos que o doping é muito mais comum do que é normalmente divulgado, contudo a televisão faz um esforço para passar a imagem de que o meio esportivo é formado por exemplos a serem seguidos, que, de vez em quando, é invadido por malandros desonestos.

É preciso ressaltar que alguns canais a cabo, como a ESPN Brasil, exercem um jornalismo mais crítico e consegue, na maior parte das vezes, separar o sucesso no esporte da conduta na vida pessoal. Contudo, a TV aberta, por buscar um público mais abrangente, fica muitas vezes prisioneira dessa cobertura um tanto hipócrita que tenta desumanizar atletas e tentar colar neles a imagem de infalibilidade.

Artigo publicado no Observatório da Imprensa

Anúncios

Um pensamento sobre “A televisão no mundo dos semideuses

  1. Muito bom.

    Apenas essa frase foi desequilibrada:

    “No entanto, é sabido que desempenho profissional não tem relação nenhuma com a conduta pessoal e vice versa.”

    Dependendo do que se quer dizer com os dois conceitos, ALGUMA relação existe sim. Por exemplo, um indivíduo que larga tudo por causa de um vício não vai muito longe.

    * * *

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s