Novas arenas não podem transformar torcedores em espectadores de teatro

torcida

No filme Cinema Paradiso, há uma cena em que dezenas de pessoas, de diferentes classes sociais, assistem a um filme. Vários estão de pé, outros tantos conversam e vibravam a cada cena mais exitante da película. Com o tempo, as salas que abrigam a sétima arte foram ficando mais confortáveis, o preço dos ingressos foi subindo e o acesso a esse tipo de lazer foi sendo elitizado.

Hoje, durante a transmissão de Bayern de Munique X Barcelona pela semifinal da Liga dos Campeões da UEFA, o comentarista Mauro Cézar Pereira exaltava o comportamento dos torcedores alemães, que cantavam hinos de apoio ao clube, enquanto os espanhóis se comportavam como se estivessem em um teatro.

O que acontece com a torcida espanhola é o mesmo que ocorreu em outros países europeus como a Inglaterra e também nos Estados Unidos. Os estádios se transformaram em centros de entretenimento e passaram a ser administrados como shoppings e não como arenas esportivas. Esse tipo de administração atrai um outro segmento de consumidor, diferente daquele que enche estádios e canta para empurrar seu time.

Com a inauguração dos novos estádios construídos para Copa do mundo e o desespero dos times para transformar suas arenas em uma fonte de renda, esse processo tende a se expandir por aqui. Um exemplo é o aumento nos preços dos ingressos. Um caso emblemático é o Corinthians, que elevou o preço da entrada para seus jogos, chegando a cobrar até R$400 em alguns jogos pela Libertadores da América.

No dia 27 de abril, foi realizado um evento teste do “novo” Maracanã. Na arquibancada, estavam os operários que trabalharam nas obras e suas famílias. Muito provavelmente, após a Copa, dificilmente esses trabalhadores poderão ir aos jogos com frequência.

Estive no Rio Grande do Norte e pude assistir a um jogo do ABC de Natal contra o Potiguar. Nas arquibancadas pude ver pessoas de terno e gravata. Ao retornar ao hotel, comentei o jogo com o garçom que também tinha ido ao estádio. Esse tipo de encontro de classes ficará cada vez mais raro, circunscrito a promoções esporádicas em momentos em que os times realmente precisarem do apoio legítimo do seus torcedores.

Para que esse modelo, que moderniza estádios mas exclui grande parcela dos torcedores, não se estabeleça por aqui, temos que fazer como Mauro Cézar e torcer para que o modelo alemão, que alia bom futebol em campo, estádios confortáveis e preços acessíveis, sai vencedor e garanta que o estádio de hoje não se transforme no cinema de amanhã.

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