Como o mercado está evitando um colapso total na Coréia do Norte

Dando continuidade ao magnífico trabalho realizado por Rodrigo da Silva do site Liberzone sobre a Coréia do Norte, o país mais fechado do mundo (veja os textos AQUI, AQUI e AQUI), disponibilizo abaixo a tradução do artigo, publicado no New York Times, do ex-oficial do estado norte-coreano, Jang Jin-sung, que desertou de seu país e hoje trabalha como editor-chefe do New Focus International. Nesse texto esclarecedor, ele explica a atual conjuntura do regime do ditador Kim Jong-il e mostra em detalhes como um sistema capitalista operado no mercado negro tem ajudado a adiar o colapso total do país. Leitura obrigatória a todos que prezam pela liberdade.

O mercado consertará gratuitamente a Coréia do Norte

Por Jang Jin-sung

Eu desertei da Coréia do Norte em 2004. Decidi arriscar minha vida para deixar o meu país – onde eu trabalhava como oficial de guerra psicológica para o governo – quando percebi que existem duas Coréias do Norte: uma que é real e outra que é uma ficção criada pelo regime.

2Embora no meu trabalho  eu tivesse acesso a meios de comunicação estrangeiros, livros com passagens contendo críticas ao nosso querido líder Kim Jong-il ou ao seu pai reverenciado, Kim Il-sung, há grandes partes que ignorava. Um dia, por curiosidade profunda, eu inventei uma desculpa para ficar por conta de decifrar as palavras  de um livro de história.

Eu tranquei a porta do escritório e coloquei as páginas contra uma janela. A luz que vinha de fora fez as palavras sob a tinta parecerem perfeitamente claras. Eu lia vorazmente. Eu fiquei até tarde no trabalho, dia após dia, para aprender a história real do meu país – ou, pelo menos, uma outra visão do mesmo.

O mais chocante foi o que eu descobri sobre a Guerra das Coréias. Haviam nos ensinado, durante toda nossa vida,  que uma invasão feita pelo sul tinha provocado o conflito. No entanto, agora eu estava lendo que, não só a Coreia do Sul, mas o resto do mundo acreditava que o Norte tinha começado a guerra. Quem estava certo?

Foi depois de minha deserção angustiante – em que eu tive que subornar para conseguir seguir meu caminho para a fronteira e escapar através de um rio congelado para a China – que reconheci a existência de uma terceira Coreia do Norte: uma teórica. Esta é a Coréia do Norte construída pelo mundo exterior, uma análise fragmentada do regime e de sua propaganda, que deixa escapar as realidades políticas e econômicas do país.

Todos nós no Departamento Frente Unida – também conhecido como “a janela para dentro e para fora da Coréia do Norte” – sabemos de cor três princípios de diplomacia: 1. Não dê atenção à Coréia do Sul. 2. Explore as emoções do Japão. 3. Dobre os Estados Unidos com mentiras, mas certifique-se que são lógicas.

Kim Jong-il salientou a importância de usar esses três princípios como molde para 3implementar a sua visão das relações exteriores de Pyongyang. Relações da Coréia do Norte com a Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos sempre seguiram de forma estrita esses princípios.

A missão do nosso departamento foi enganar o nosso povo e o mundo, fazendo o que era necessário para manter a nossa liderança no poder. Nós nos referimos abertamente a conversações com a Coréia do Sul como “agricultura de ajuda”, porque, enquanto Seul buscou o diálogo por meio de sua chamada Sunshine Policy, nós vimos isso não como uma abertura  para o progresso diplomático, mas como forma de extrair o máximo de ajuda possível. Nós também fomos bem sucedidos em ganhar tempo para o nosso programa nuclear através da maratona interminável de negociações envolvendo seis partes.

A despeito das enganações de Pyongyang, muitas pessoas no mundo exterior continuam a acreditar na Coréia do Norte teórica, na qual o diálogo com o regime é visto como o caminho para efetuar a mudança. Porém, eu sei, dos meus anos dentro do governo, que diálogo não fará com que Pyongyang mude os seus caminhos, nem convencerá o atual líder do Norte, Kim Jong-un.

Diálogo nunca vai convencer o regime a desistir de suas armas nucleares. O programa nuclear está intimamente ligado à sua sobrevivência. E as negociações não levarão à mudança no longo do tempo. O regime as vê apenas como uma ferramenta para conseguir ajuda. Diplomacia de alto nível não é uma boa estratégia para conseguir que o regime promova reformas econômicas. A chave para a mudança está fora da influência do regime – na economia subterrânea florescente.

Todos os norte coreanos dependiam de um sistema de racionamento do Estado para sua sobrevivência, até que ele entrou em colapso em meados dos anos 1990. Sua falência foi devido em parte ao investimento concentrado do regime em recursos para formar uma “economia de partido”, que manteve o culto dos Kims e esbanjou luxo junto com a elite, em vez de desenvolver uma economia normal, com base na produção interna e no comércio.

5Pessoas desesperadas começaram a trocar bens de consumo por arroz nas ruas – e a economia subterrânea nasceu. Com milhares de pessoas morrendo de fome, as autoridades não tinham opção a não ser fechar os olhos para todos os mercados ilegais que começaram a aparecer.

A esta altura, os negócios locais do país passaram a ser responsáveis ​​por alimentar seus empregados. A única maneira de fazer isso era através da criação de “empresas comerciais”, que vendiam matérias-primas para a China em troca de arroz. Essas empresas passaram a fazer parte da fundação da economia subterrânea, atuando como centros de importação e exportação que, com o tempo, começaram a importar bens de consumo da China, como geladeiras e rádios.

Da mesma forma, as autoridades do partido começaram a participar de disputas e embates, lucrando através de suborno e proibindo atividades de financiamento. Hoje em dia o partido é tão profundamente envolvido na economia de mercado que as “as empresas comercias” são formadas por filhos de funcionários do partido e abertamente operam em nome do partido e dos militares. Em suma, toda a Coreia do Norte passou a contar com uma economia de mercado, e não há lugar no país que esteja imune a ele.

O efeito social da ascensão do mercado tem sido extraordinário. O cordão umbilical entre o indivíduo e o Estado foi cortado. Aos olhos das pessoas, a lealdade ao Estado foi substituída pelo valor do dinheiro. E o dólar americano é a moeda de escolhida.

Hoje, quando os norte-coreanos são ordenados por seus empregadores estatais a participarem de atividades políticas, eles sabem que o tempo deles está sendo desperdiçado. Poucos norte-coreanos comparecem aos seus empregos públicos. Essa crescente independência econômica e psicológica entre as pessoas comuns está se tornando a maior pedra no sapato do regime.

Também é a chave para a mudança. Em vez de nos concentrarmos no regime e em seus agentes como possíveis instigadores de reforma, nós devemos reconhecer a força do mercado florescente para transformar de modo lento, mas definitivo, a Coreia do Norte de baixo para cima. Esse empoderamento do povo norte-coreano é crucial não apenas para uma transformação positiva da nação, mas também para assegurar uma transição estável para uma nova era após uma eventual queda do regime.

O crescente comércio com a China deixou a fronteira norte-coreana porosa de muitas formas, facilitando o fluxo de informação 3para dentro e para fora do país. Muitos norte-coreanos agora podem assistir programas de televisão sul-coreanos que são contrabandeados em DVDs ou pen drives.

Uma forma de acelerar a mudança seria manter as transmissões para o país, para que os norte-coreanos possam acessar a programação de rádio internacional mais facilmente em seus aparelhos ilegais. Outra é apoiar o trabalho dos exilados norte-coreanos, que são um canal de bens e ideias liberais pela fronteira.

As negociações com Pyongyang só podem oferecer soluções temporárias para crises fabricadas. E posso dizer com base na minha experiência de que elas encorajam apenas mais enganação por parte da Coreia do Norte. Olhar para a Coreia do Norte de baixo, explorando as realidades do mercado, é a única forma de promover a reforma do regime – ou sua queda.

Tradução: Pedro Valadares

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3 pensamentos sobre “Como o mercado está evitando um colapso total na Coréia do Norte

  1. Muito bom! Só alguns erros de português/tradução, mas nada que descredibiliza o artigo, a notícia. Incrível como o povo sofre com regimes socialistas ditatoriais, mas conseguem de alguma forma contornar a situação para sobreviv

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