Analisando Olavo de Carvalho sem preconceitos

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Comecei a me interessar pelo liberalismo em 2011. Na época, a linha que mais me atraía era a do libertarianismo. Nos grupos que seguem essa linha, Olavo de Carvalho não era dos autores mais bem quistos. Nesse sentido, acabei aderindo a esse preconceito de forma meio automática, sem analisar profundamente sua produção.

O tempo passou, amadureci, mudei algumas visões. Uma tendência que temos quando nos interessamos por determinada escola ideológica é o de querer reduzir tudo a uma disputa entre certos e errados. Com o tempo (pelo menos, para as pessoas sensatas), a gente desradicaliza e passa a avaliar o mérito das coisas mais caso a caso e não balizado por um enquadramento moral geral.

Nesse contexto, dois fatos me fizeram olhar novamente a obra de Olavo de Carvalho. Diria que foi um processo divido em dois momentos. Em 2014, li duas obras dele e gostei bastante do nível de erudição e de sofisticação narrativa, além da profundidade do conhecimento. Nesse ponto, passei a entender melhor que o Olavo das redes socais é mais uma personagem que ele criou para atrair mais pessoas.

O outro passo aconteceu neste ano. Dois caras, cujas ideias eu respeito bastante, são alunos do Olavo. Esse foi um fator fundamental para eu buscar mais obras do autor e, até, ficar tentado a me matricular em seu curso de filosofia online.

No pouco que li nessa retomada, dois argumentos dele me chamaram bastante atenção. Em um dos artigos do livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, ele explica que devemos estudar não para querer controlar o mundo, mas sim para entendê-lo. Ele também explica que devemos buscar o conhecimento para resolver uma questão concreta em nossas vidas, e não apenas por diletantismo.

A conclusão que tiro é que não devemos fazer julgamentos peremptórios sobre ninguém, principalmente quando não nos aprofundamos na obra da pessoa. Olavo pode ter algumas opiniões bem equivocadas, mas a maior parte de sua produção me pareceu bastante séria e acurada academicamente. Quem sabe não retorno aqui mais para frente para dar mais impressões. Veremos!

 

 

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Ser grosseiro é diferente de ser autêntico

Trump

Um fenômeno assustador vem acontecendo nas primárias republicanas nos Estados Unidos. O bufão Donald Trump vem vencendo em vários estados acumulando delegados. Isso tem gerado um intenso movimento do próprio GOP para evitar que o milionário seja o candidato.

O grande trunfo de Trump é seu jeito desbocado. Muitos eleitores têm associado esse comportamento a uma suposta autenticidade e sinceridade. Para essa parcela do eleitorado as falas preconceituosas dele significam que ele fala o que pensa e não tem rabo preso.

O pior é que Trump tem sabido aproveitar os ataques para se colocar como um mártir, um cavaleiro solitário lutando pelo futuro dos americanos. A verdade porém é que ele aponta não para o futuro, mas para o passado. Sua campanha é calçada no xenofobismo, no machismo e no preconceito. Tudo isso de forma desavergonhada e extremada. Ele busca se conectar com os sentimentos mais retrógrados dos cidadãos americanos.

Contudo, a democracia é, por excelência, o regime da negociação e da construção de consenso. O extremismo só serve para gerar paralisia e, no extremo, ruptura e autoritarismo.

No fim das contas, na maioria das vezes, os eleitores acabam por optar por candidatos mais pragmáticos e moderados, o que contribui para a consolidação e aprimoramento do sistema democrático.

E boas notícias vem surgindo nos últimos dias. A vitória de Trump na Super Tuesday não foi tão avassaladora como as pesquisas apontavam. Além disso, houve um crescimento dos candidatos mais sensatos.

Para concluir,  reforço a mensagem do título. Grosseira não é autenticidade e muito menos sinceridade. Como vocês podem ver no vídeo manifesto de John Oliver, Trump tem mentido descaradamente para os votantes.

5 razões para votar em Eduardo Jorge

Eduardo JorgeEduardo Jorge, candidato do Partido Verde à presidência, tem ganhado muita visibilidade por sua maneira autêntica e extrovertida de ser. Contudo, para além do folclore do Mujica Brasilieiro, ele possui propostas inovadoras e importantes, que merecem seu voto.

Descriminalização da maconha

A guerra às drogas já se provou um grande fracasso. Depois de anos, o que se conseguiu foi apenas uma multidão de mortos, aumento do consumo e elevação da violência em comunidades mais pobres.

Como a demanda pela erva é crescente, alguns indivíduos se dispõem a fornecer o produto em troca de uma alta margem de lucro. Como a venda é ilegal, esse comércio tende a atrair exatamente aqueles que já vivem à margem da lei, os criminosos. Além disso, a proibição cria um estigma social sobre o usuário, que dificulta que ele busque tratamento.

Por fim, o efetivo policial que está combatendo o tráfico deixa de atuar na solução de crimes muito mais danosos, como assassinatos e estupros.

Descriminalização do aborto

Nenhuma mulher em sã consciência usa o aborto como método contraceptivo. Se submeter a isso é uma decisão extrema e difícil. Por conta da criminalização da prática, ela se torna também perigosa, principalmente para as mulheres mais pobres, que tem que recorrer a “clínicas” clandestinas que adotam procedimentos medievais e colocam a vida da grávida em risco.

O esforço deve ser em campanhas de planejamento familiar e de prevenção. Caso uma mulher tenha que recorrer ao aborto, o mais importante é que ela tenha profissionais honestos e competentes para auxiliá-la nesse delicado momento.

ParlamentarismoEduardo Jorge 2

Eduardo acertou na mosca ao falar, no debate na Rede Globo, que o Brasil vive sob um presidencialismo imperial. O atual regime coloca o Congresso a serviço das demandas do Poder Executivo e incentiva práticas fisiológicas.

O presidencialismo de coalizão existente no Brasil é muito personalístico. Passa a ideia errônea de que o chefe do Executivo é um salvador da pátria e tem poder para resolver qualquer problema.

No parlamentarismo o foco é no parlamento, no qual estão representantes mais identificados com as localidades onde estão seus eleitores. Nesse modelo de governo, fica mais factível para o cidadão cobrar o governo e também reforça-se o alinhamento programático.

Fim dos salários para vereadores

Outra boa proposta do candidato do partido Verde é o fim da remuneração dos vereadores. Isso permitiria, além de uma imensa economia de recursos públicos, o aumento do número de vereadores. Dessa forma, aprofundar-se-ia a democracia representativa.

Eduardo calcula que o fim dos salários representaria um montante de R$15 bilhões por ano para investir em outros fins. “Política não é profissão. Ela é pra servir”, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo.

Eduardo Jorge 3Energias renováveis

Por fim, uma bandeira que merece destaque, e que honra o nome do partido ao qual está filiado, é a redução drástica do uso de combustíveis fósseis, que intensificam o processo de aquecimento global e prejudicam a saúde das pessoas nas cidades e no campo.

Ele defende a taxação das fontes sujas de energia e o investimento pesado em tecnologias mais sustentáveis, como a energia solar. Para afirmar seus propósitos de preservação ambiental, Eduardo assinou as propostas do Greenpeace e prometeu solarizar um milhão de casas.

Conclusão

Se você não quiser votar em Eduardo por suas propostas, vote pela autenticidade. Em um cenário dominado por candidatos moldados por marqueteiros, ele é um dos poucos que pensa com a própria cabeça e é justo ao debater com os outros candidatos. Critica o que está ruim, mas não omite o que foi bem feito.

O voto verdadeiramente útil é aquele que valoriza as qualidades que desejamos cultivar na política e na sociedade como um todo. Por tudo isso, no domingo vote pela cultura de paz, vote no 43.

Assista abaixo a entrevista que EJ deu ao jornalista Fernando Rodrigues

Por que vemos tantos ataques nos debates políticos?

Luciano GenroSe você assistiu o debate presidencial ontem na Rede Globo, percebeu uma quase ausência de propostas, contrastando com uma prolífica quantidade de ataques entre os candidatos. Quem queria conhecer os planos de governos para decidir seu voto, teve que se contentar em se divertir (ou se revoltar) com o embates e trocas de acusações.

O objetivo número 1 nesses eventos é estigmatizar o adversário e se colocar como representante do bem. Mas por que isso acontece? Na minha opinião, os participantes escolhem os ataques, porque eles estão focados no campo emocional, o que aumenta as chances de gerar engajamento. Já o embate de propostas está circunscrito ao campo racional, exige que o eleitor pese os prós e os contras de cada proposição para tomar sua decisão.

Tendo em vista o pouco tempo que os candidatos têm para expor ideias (no máximo 1:30 min) e o momento em que é realizado o debate (a três dias da eleição), não é de se admirar que os debatedores se transformem em gladiadores (afinal de contas, só um sairá “vivo” da disputa).

Outra explicação nos é dada pelo economista e ganhador do prêmio Nobel, Friedrich Hayek. Ele aponta que:

Quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo — o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação — do que sobre qualquer plano positivo. A antítese “nós” e “eles”, a luta comum contra os que se acham fora do grupo, parece um ingrediente essencial a qualquer ideologia capaz de unir solidamente um grupo visando à ação comum. Por essa razão, é sempre utilizada por aqueles que procuram não só o apoio a um programa político, mas também a fidelidade irrestrita de grandes massas. Do seu ponto de vista, isso tem a vantagem de lhes conferir mais liberdade de ação do que qualquer programa positivo.

Ou seja, o foco não é ampliar a quantidade de eleitores que concordam com suas propostas, mas sim elevar o número de pessoas que rejeitam seus adversários. O resultado é uma eleição no qual quem ganha é o menos pior e não o que possui as melhores propostas.

Outro ponto negativo desse tipo de estratégia é o acirramento dos conflitos na sociedade, que alimenta um patrulhamento ideológico e a destruição de pontes que permitem o diálogo.

Rand Paul: Devemos desmilitarizar a polícia

Tradução Pedro Valadares

No último dia 9 de agosto, o jovem Michel Brown foi morto por um policial, por conta de um suposto furto em uma loja de conveniências. O fato acirrou os conflitos raciais, os habitantes locais afirmam que Brown foi morto por ser negro. Dessa forma, teve início uma série de manifestações, que resultaram também em saques e furtos. Durante a revolta, houve confronto com a polícia, que utilizou armamento militar contra os manifestantes. 

A situação chamou atenção da mídia nacional e internacional e levou o senador Rand Paul, filho do ícone libertário Ron Paul, a escrever um artigo na revista Times, que vem gerando grande repercussão. Leia abaixo o texto traduzido e veja como a situação apresenta várias semelhanças com a realidade brasileira, principalmente em relação à insensata guerra às drogas, que vitima todos os dias vários jovens na periferia, na maioria negros e pardos.

Polícia da cidade de Feguson nos Estados Unidos.

Polícia da cidade de Feguson nos Estados Unidos.

A morte do jovem de 18 anos de idade, Michael Brown, é uma tragédia terrível que continua a gerar revolta na comunidade de Ferguson, Missouri e em todo o país.

Se tivessem me dito para sair da rua, como um adolescente, haveria várias possibilidades do que eu poderia esperar que acontecesse comigo. Contudo, eu nunca esperaria levar um tiro.

A indignação de Ferguson é compreensível, embora deva nunca servir como desculpa para tumultos ou saques. A polícia tem um papel legítimo de manter a paz, mas deve haver uma diferença entre uma resposta policial e uma resposta militar.

As imagens e cenas que continuamos a ver em Ferguson se assemelham mais a uma guerra do que a uma ação policial tradicional.

Glenn Reynolds, no Popular Mechanics, reconheceu, há cinco anos, a crescente militarização da polícia. Em 2009, ele escreveu:

“Soldados e policiais devem ser diferentes. Polícia tem de olhar para dentro. Espera-se supostamente que eles protejam os seus concidadãos de criminosos e mantenham a ordem com um mínimo de força.

É a diferença entre Audie Murphy e Andy Griffith. Mas hoje em dia, policiais estão se vestindo, e agindo, mais como soldados do que como policiais, com consequências ruins. E quem sofre as consequências são geralmente civis inocentes”.

Walter Olson  do Cato Institute observou esta semana qual o papel que a militarização crescente da aplicação da lei está tendo atualmente em Ferguson:

Por que veículos blindados estão sendo usados em um subúrbio do interior do Midwest? Por que os policiais usam roupas camufladas em um local feito para lojas de conveniência e salões de beleza? Por que as autoridades de Ferguson, Missouri, lançam mão de métodos de controle de multidão quase marciais (como a proibição de andar na rua) e, conforme o relato de Riverfront Times, o uso gás lacrimogêneo contra as pessoas em seus quintais? (‘Esta minha propriedade!’, ele gritou, o que levou a polícia a disparar uma bomba de gás lacrimogêneo diretamente em seu rosto). Por que alguém que se identificou como um veterano da 82ª Divisão Aérea do Exército, observando a atuação da polícia de Ferguson, comenta que ‘nós pegamos mais leve do que isso em uma zona de guerra real’?

Olson acrescenta, “o aspecto que mais salta aos olhos na história, porém, é de forças policiais equipadas além da conta para confrontar manifestantes desarmados que são vistos levantando cartazes ou apenas as suas mãos”.

Como isso aconteceu?

A maioria da corporação é formada por bons policiais e pessoas boas. É, sem dúvida, um trabalho difícil, especialmente nas circunstâncias atuais.

Há um problema sistêmico com a aplicação da lei de hoje.

Não surpreendentemente, o governo inchado tem sido o cerne do problema. Washington tem incentivado a militarização das polícias locais, usando dinheiro federal para ajudar as prefeituras a construir o que são essencialmente pequenos exércitos – onde os departamentos de polícia competem para adquirir equipamentos militares que vão muito além do que a maioria dos americanos pensam ser necessário para garantir a aplicação da lei.

Isso geralmente é feito em nome da guerra às drogas ou ao terrorismo. Evan Bernick, da Heritage Foundation,  escreveu em 2013 que “o Departamento de Segurança Nacional distribuiu subsídios para ações de antiterrorismo para as cidades e vilas em todo o país, o que lhes permitiu comprar veículos blindados, armas, armaduras, aeronaves e outros equipamentos”.

Bernick continua, “as agências federais de todos os matizes, assim como os departamentos de polícia locais em cidades com população inferior a 14.000, vêm sendo equipados com equipes da SWAT e artilharia pesada.”

Bernick observou o desequilíbrio caricatural entre o equipamento alguns departamentos de polícia possuem e a população que servem, “hoje, Bossier Parish, Louisiana, tem armas arma calibre .50 acoplada em um veículo blindado. O Pentágono doa milhões de equipamentos militares para departamentos de polícia em todo o país- inclusive tanque”.

Quando você soma essa militarização da aplicação da lei à erosão das liberdades civis e do devido processo legal, que permite à polícia atuar como juiz – com uso de artifícios como correspondências da segurança nacional, revistas em residências sem aviso, mandados judiciais genéricos, confiscos sem condenação – começamos a ter uma problema muito sério em nossas mãos.

Tendo em conta esses desdobramentos, é quase impossível para muitos norte-americanos não sentirem que são alvos de seu governo. Dadas as disparidades raciais em nosso sistema de justiça criminal, é impossível, particularmente, para os afro-americanos não sentirem que são alvos de seu governo.

Isso faz parte da angústia que estamos vendo nos trágicos acontecimentos fora de St. Louis, Missouri. É o que os cidadãos de Ferguson sentem quando há um disparo infeliz e doloroso, como o incidente com Michael Brown.

Quem pensa, mesmo que inadvertidamente, que o fator racial não distorce a aplicação da justiça penal neste país não está prestando atenção suficiente. Nossas prisões estão cheias de homens e mulheres negros e pardos que estão cumprindo, inapropriadamente, penas longas e severas por erros não violentos que cometeram na juventude.

A militarização do nosso sistema de aplicação da lei se deve a uma expansão sem precedentes do poder do governo nesse domínio. Uma coisa é o fato de funcionários federais trabalharem em conjunto com as autoridades locais para reduzir ou resolver crimes. Outra é subsidiá-los.

Os americanos nunca devem sacrificar sua liberdade por uma ilusória e perigosa, ou falsa, sensação de segurança. Essa tem sido uma causa que tenho defendido há anos e que está em um ponto crítico em nosso país.

Vamos continuar a orar para a família de Michael Brown e para o povo de Ferguson, a polícia e os cidadãos igualmente.

Leia o texto original AQUI.

Quatro coisas que o liberalismo não é

certo-ou-errado_21095398Quando converso com pessoas próximas, percebo sempre uma confusão a respeito do que significa ser liberal. Por isso, listarei aqui os equívocos mais comuns que ouço e tentar desfazê-los.

1) Liberalismo não é conservadorismo – Os conservadores têm visões liberais no campo econômico, mas no campo social, a maioria (não são todos) é intervencionista e defende que o Estado atue na esfera das escolhas individuais, por exemplo, defendendo a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o aumento do investimento na guerra às drogas. O conservadorismo têm figuras de grande visibilidade, como Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Paulo Eduardo Martins entre outros, o que, por vezes, aumenta a confusão. O liberalismo prega o respeito total às escolhas individuais (desde que não afetem o direito de outras pessoas), tanto no campo econômico, quanto no campo social.

2) Liberalismo não é anti petismo – Essa confusão tem muito a ver com o fato de os petistas tacharem seus oposicionista, principalmente o PSDB, como “neoliberais”. Dessa forma, muitas pessoas associam o liberalismo a uma oposição ao partido dos trabalhadores. De fato, existem muitos liberais que se opõem a várias políticas do PT, mas o fato de alguém não concordar com os pontos de vista petistas não o faz um liberal. Como disse antes, o liberalismo é pautado pela defesa do indivíduo contra a opressão do coletivismo e do estatismo. Se o PT defender pontos de vista nesse sentido, os liberais estarão ao seu lado.

3) Liberalismo não é defesa das grandes empresas – As maiores corporações são as mais interessadas em criar regulações que impeçam novos competidores de entrarem em seu mercado. Dessa forma, elas investem fortemente em lobby para conseguir que políticos defendam seus interesses contra os demais empreendedores. O liberalismo é totalmente contra esse comportamento corporativista e promíscuo entre grandes empresas e o Estado. Kevin Carson inclusive defende que essas companhias só são tão grandes por conta do apoio do governo. Sem as regulações e a burocracia estatal, a competição seria mais forte e o mercado seria formado somente por médias, pequenas e microempresas, o que permitiria um atendimento de maior qualidade e mais personalizado.

É exatamente essa proteção estatal que permite que mega corporações desrespeitem os consumidores sem se preocupar em perder clientes. Por exemplo, se houvesse menos barreiras regulatórias e burocráticas para novos entrantes, as telefônicas seriam muito mais cuidadosas com as críticas de seus usuários.

4) Liberalismo não é defesa da ditadura militar – Essa talvez seja a mais irracional das confusões. Pode-se creditar essa visão ao fato de alguns políticos, com visão liberal no campo econômico, terem feito elogios ao governo dos generais, como foi o caso de Roberto Campos. Contudo, o liberalismo é contra qualquer forma de restrição aos direitos individuais e, por isso, opõe-se radicalmente a qualquer tipo de ditadura, seja de direita, de esquerda ou de centro.

Planejamento central é algo que nenhum liberal defende, pois, como afirma Hayek, a informação é sempre incompleta e imperfeita. Dessa forma, nenhum grupo de indivíduo é capaz de dominar todo conhecimento necessário para tomar decisões boas para todos. Assim, a forma de obter o maior benefício coletivo é confiar na ordem espontânea e no processo de mercado, que permite um intercâmbio livre de informações.

Quantos Julianos Torres serão necessários para reagirmos?

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Hoje aconteceu algo bem preocupante. A polícia federal intimou o diretor executivo e um dos fundadores dos Estudantes pela Liberdade, Juliano Torres, para depor sobre protestos ligados à Copa do Mundo Fifa. Isso configura uma clara intenção de intimidar grupos opositores e evitar as gigantes manifestações que tivemos em junho do ano passado, durante a Copa das Confederações.

Já ouvi outros relatos de outras lideranças de diferentes movimentos, que vem sendo “convidados” para “colaborar” com a inteligência estatal. Só um cego não vê que isso é uma clara estratégia de enumerar bodes expiatórios no caso das coisas saírem de controle.Se houver confronto entre manifestantes e policiais durante a Copa, a polícia federal terá já em mãos vários nomes de “culpados” e “agitadores” para entregar à mídia e livrar a própria cara.

Uma das coisas que mais desnorteou os políticos foi não conseguir encontrar líderes  e propósitos claros nas manifestações. Isso escancarou o despreparo do estado para lidar com movimentos horizontais e multicêntricos, organizados por redes diversas. O objetivo da convocação de representantes de movimentos político-sociais é tentar criar um clima de insegurança e medo dentro de diferentes grupos para criar uma desmobilização geral. O estado espertamente usa os violentos black blocks como pretexto para convocar qualquer pessoa que tenha algum tipo de militância política.

Quando o fato de você defender e trabalhar por um movimento ideológico passa a ser motivo para ser intimado pelas forças policiais, entramos em um caminho muito perigoso de sufocamento das liberdades civis. Junte-se a isso o projeto que tipifica manifestações como terrorismo e entramos direto no rumo de implosão da nossa jovem democracia. A pergunta que não quer calar: quantos Julianos Torres serão necessários para reagirmos?

O filme Minority Report ilustra exatamente as consequências da falta de limites das forças de inteligência estatal. Assista o trailer abaixo:

Romário – o ingrato

RomárioSe para se tornar um jogador profissional de futebol fosse necessário tirar um registro junto ao Ministério do Trabalho, Romário conseguiria ir tão longe quanto foi? Levando em conta o histórico das ações estatais, o baixinho, nascido na favela do Jacaré, teria tido muita dificuldade para passar pelos crivos da burocracia ministerial.

O que permitiu o sucesso do atacante foi exatamente o fato de o mercado do futebol ser relativamente desregulamentado e ter pouca ou nenhuma barreira de entrada. Dessa forma, qualquer garoto talentoso, independentemente da condição socioeconômica, pode conseguir uma oportunidade.

Apesar de ter sido beneficiado pela falta de regulamentação e de intervenção estatal no mercado, Romário parece não ser grato. O agora deputado federal criou um projeto de lei que visa regulamentar profissões que têm relação com o movimento Hip Hop, como as de DJ, MC (mestre de cerimônias), rapper, grafiteiro e de atividades ligada ao beat box e à dança de rua.

O projeto submete o exercício das profissões à realização de cursos técnicos de capacitação profissional, em instituições reconhecidas pelo governo, ou então à comprovação do exercício das atividades de forma interrupta no ano anterior à publicação da lei, caso seja aprovada. De acordo com o parlamentar, o objetivo do projeto é proteger e reconhecer “o valor dos nossos jovens que vivem e respiram o Hip Hop, em todas as suas formas de expressão e ações sociais”.

Contudo, o que Romário está fazendo é defender interesses corporativistas de pessoas que querem criar uma reserva de mercado. Como explica Ron Paul, “em um estado corporativista, os membros do governo frequentemente agem em conluio com suas empresas favoritas — aquelas que têm boas conexões com o poder —, de modo a criar políticas que deem a essas empresas uma posição monopolista — tudo em detrimento da concorrência e dos consumidores”.

O movimento Hip Hop, assim como o futebol, é um mercado que cresceu focado no talento e no esforço individual. Essa liberdade trouxe inventividade e inovação ao segmento, o que permitiu que ele se expandisse e gerasse oportunidade para um número cada vez maior de pessoas. O projeto do baixinho, ao contrário do que ele prega, não irá valorizar a cultura. O mais provável é que a destrua. Como explica Brandon Maxwell, “o hip hop não se tornou uma potência comercial e cultural da noite para o dia. O livre-mercado agiu como um catalisador. O processo de mercado – competição, refinamento e crescimento – moldou o gênero e a cultura ao longo do tempo. Ele complementou o processo de gravação, mixagem e remasterização e auxiliou o hip hop a descobrir novos ouvintes. E, como ocorre no mercado, ajudou novos ouvintes a descobrir o estilo”.

Entregar na mão do estado o direito de decidir quem está e quem não está apto a trabalhar no mercado do Hip Hop é ceifar exatamente o elemento que mais vez esse ramo prosperar: a liberdade. Imagine um jovem talentoso morador de uma comunidade pobre que não tem tempo nem dinheiro para fazer os cursos necessários ou para tirar a carteira no ministério do trabalho? Ele estaria impedido de exercer seu dom ou então teria que fazê-lo correndo o risco de ser autuado por um burocrata.

Além disso, os consumidores também serão prejudicados caso haja regulamentação. Primeiro, porque haverá menos competição e assim os preços irão subir. Segundo, a qualidade do serviço também será prejudicada. Ou seja, Romário marcou um tremendo gol contra.

Texto publicado no Portal Liberatarianismo

Como o mercado está evitando um colapso total na Coréia do Norte

Dando continuidade ao magnífico trabalho realizado por Rodrigo da Silva do site Liberzone sobre a Coréia do Norte, o país mais fechado do mundo (veja os textos AQUI, AQUI e AQUI), disponibilizo abaixo a tradução do artigo, publicado no New York Times, do ex-oficial do estado norte-coreano, Jang Jin-sung, que desertou de seu país e hoje trabalha como editor-chefe do New Focus International. Nesse texto esclarecedor, ele explica a atual conjuntura do regime do ditador Kim Jong-il e mostra em detalhes como um sistema capitalista operado no mercado negro tem ajudado a adiar o colapso total do país. Leitura obrigatória a todos que prezam pela liberdade.

O mercado consertará gratuitamente a Coréia do Norte

Por Jang Jin-sung

Eu desertei da Coréia do Norte em 2004. Decidi arriscar minha vida para deixar o meu país – onde eu trabalhava como oficial de guerra psicológica para o governo – quando percebi que existem duas Coréias do Norte: uma que é real e outra que é uma ficção criada pelo regime.

2Embora no meu trabalho  eu tivesse acesso a meios de comunicação estrangeiros, livros com passagens contendo críticas ao nosso querido líder Kim Jong-il ou ao seu pai reverenciado, Kim Il-sung, há grandes partes que ignorava. Um dia, por curiosidade profunda, eu inventei uma desculpa para ficar por conta de decifrar as palavras  de um livro de história.

Eu tranquei a porta do escritório e coloquei as páginas contra uma janela. A luz que vinha de fora fez as palavras sob a tinta parecerem perfeitamente claras. Eu lia vorazmente. Eu fiquei até tarde no trabalho, dia após dia, para aprender a história real do meu país – ou, pelo menos, uma outra visão do mesmo.

O mais chocante foi o que eu descobri sobre a Guerra das Coréias. Haviam nos ensinado, durante toda nossa vida,  que uma invasão feita pelo sul tinha provocado o conflito. No entanto, agora eu estava lendo que, não só a Coreia do Sul, mas o resto do mundo acreditava que o Norte tinha começado a guerra. Quem estava certo?

Foi depois de minha deserção angustiante – em que eu tive que subornar para conseguir seguir meu caminho para a fronteira e escapar através de um rio congelado para a China – que reconheci a existência de uma terceira Coreia do Norte: uma teórica. Esta é a Coréia do Norte construída pelo mundo exterior, uma análise fragmentada do regime e de sua propaganda, que deixa escapar as realidades políticas e econômicas do país.

Todos nós no Departamento Frente Unida – também conhecido como “a janela para dentro e para fora da Coréia do Norte” – sabemos de cor três princípios de diplomacia: 1. Não dê atenção à Coréia do Sul. 2. Explore as emoções do Japão. 3. Dobre os Estados Unidos com mentiras, mas certifique-se que são lógicas.

Kim Jong-il salientou a importância de usar esses três princípios como molde para 3implementar a sua visão das relações exteriores de Pyongyang. Relações da Coréia do Norte com a Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos sempre seguiram de forma estrita esses princípios.

A missão do nosso departamento foi enganar o nosso povo e o mundo, fazendo o que era necessário para manter a nossa liderança no poder. Nós nos referimos abertamente a conversações com a Coréia do Sul como “agricultura de ajuda”, porque, enquanto Seul buscou o diálogo por meio de sua chamada Sunshine Policy, nós vimos isso não como uma abertura  para o progresso diplomático, mas como forma de extrair o máximo de ajuda possível. Nós também fomos bem sucedidos em ganhar tempo para o nosso programa nuclear através da maratona interminável de negociações envolvendo seis partes.

A despeito das enganações de Pyongyang, muitas pessoas no mundo exterior continuam a acreditar na Coréia do Norte teórica, na qual o diálogo com o regime é visto como o caminho para efetuar a mudança. Porém, eu sei, dos meus anos dentro do governo, que diálogo não fará com que Pyongyang mude os seus caminhos, nem convencerá o atual líder do Norte, Kim Jong-un.

Diálogo nunca vai convencer o regime a desistir de suas armas nucleares. O programa nuclear está intimamente ligado à sua sobrevivência. E as negociações não levarão à mudança no longo do tempo. O regime as vê apenas como uma ferramenta para conseguir ajuda. Diplomacia de alto nível não é uma boa estratégia para conseguir que o regime promova reformas econômicas. A chave para a mudança está fora da influência do regime – na economia subterrânea florescente.

Todos os norte coreanos dependiam de um sistema de racionamento do Estado para sua sobrevivência, até que ele entrou em colapso em meados dos anos 1990. Sua falência foi devido em parte ao investimento concentrado do regime em recursos para formar uma “economia de partido”, que manteve o culto dos Kims e esbanjou luxo junto com a elite, em vez de desenvolver uma economia normal, com base na produção interna e no comércio.

5Pessoas desesperadas começaram a trocar bens de consumo por arroz nas ruas – e a economia subterrânea nasceu. Com milhares de pessoas morrendo de fome, as autoridades não tinham opção a não ser fechar os olhos para todos os mercados ilegais que começaram a aparecer.

A esta altura, os negócios locais do país passaram a ser responsáveis ​​por alimentar seus empregados. A única maneira de fazer isso era através da criação de “empresas comerciais”, que vendiam matérias-primas para a China em troca de arroz. Essas empresas passaram a fazer parte da fundação da economia subterrânea, atuando como centros de importação e exportação que, com o tempo, começaram a importar bens de consumo da China, como geladeiras e rádios.

Da mesma forma, as autoridades do partido começaram a participar de disputas e embates, lucrando através de suborno e proibindo atividades de financiamento. Hoje em dia o partido é tão profundamente envolvido na economia de mercado que as “as empresas comercias” são formadas por filhos de funcionários do partido e abertamente operam em nome do partido e dos militares. Em suma, toda a Coreia do Norte passou a contar com uma economia de mercado, e não há lugar no país que esteja imune a ele.

O efeito social da ascensão do mercado tem sido extraordinário. O cordão umbilical entre o indivíduo e o Estado foi cortado. Aos olhos das pessoas, a lealdade ao Estado foi substituída pelo valor do dinheiro. E o dólar americano é a moeda de escolhida.

Hoje, quando os norte-coreanos são ordenados por seus empregadores estatais a participarem de atividades políticas, eles sabem que o tempo deles está sendo desperdiçado. Poucos norte-coreanos comparecem aos seus empregos públicos. Essa crescente independência econômica e psicológica entre as pessoas comuns está se tornando a maior pedra no sapato do regime.

Também é a chave para a mudança. Em vez de nos concentrarmos no regime e em seus agentes como possíveis instigadores de reforma, nós devemos reconhecer a força do mercado florescente para transformar de modo lento, mas definitivo, a Coreia do Norte de baixo para cima. Esse empoderamento do povo norte-coreano é crucial não apenas para uma transformação positiva da nação, mas também para assegurar uma transição estável para uma nova era após uma eventual queda do regime.

O crescente comércio com a China deixou a fronteira norte-coreana porosa de muitas formas, facilitando o fluxo de informação 3para dentro e para fora do país. Muitos norte-coreanos agora podem assistir programas de televisão sul-coreanos que são contrabandeados em DVDs ou pen drives.

Uma forma de acelerar a mudança seria manter as transmissões para o país, para que os norte-coreanos possam acessar a programação de rádio internacional mais facilmente em seus aparelhos ilegais. Outra é apoiar o trabalho dos exilados norte-coreanos, que são um canal de bens e ideias liberais pela fronteira.

As negociações com Pyongyang só podem oferecer soluções temporárias para crises fabricadas. E posso dizer com base na minha experiência de que elas encorajam apenas mais enganação por parte da Coreia do Norte. Olhar para a Coreia do Norte de baixo, explorando as realidades do mercado, é a única forma de promover a reforma do regime – ou sua queda.

Tradução: Pedro Valadares

Ron Paul virá ao Brasil – saiba quem é ele e porque isso é um fato histórico

Ron Paul 1

O ano de 2014 será especial. Não por causa da Copa do Mundo ou das eleições, mas porque, em setembro, Ron Paul virá ao Brasil a convite do Instituto Mises Brasil. Se você não o conhece ainda, precisa urgentemente buscar mais informações sobre ele.

Paul foi  candidato à presidência dos Estados Unidos em três ocasiões 1998, 2008 e 2012.  Ele foi eleito para mandatos no Congresso americano em três períodos diferentes: de 1976 a 1977, de 1979 a 1985 e de 1997 a 2013.

Nas duas últimas eleições presidenciais que disputou pelo partido republicano, ele casou frisson. A mídia brasileira, desacostumada às posições libertárias, deu pouca importância para ele, tratando-o como um radical alienado e dando ênfase a sua proposta de acabar com Federal Reserve, o Banco Central Americano (esse, aliás, é o tema de um dos livros de Paul traduzido para português, por Bruno Garschagen). A única e honrosa exceção foi o colunista Guga Chacra, que na época escreveu um post esclarecedor sobre essa grande figura política.

0816-ron-paul-iowa_full_380Infelizmente, outras excelentes e coerentes propostas dele foram ignoradas, como a retirada total das tropas americanas de todos os outros países e a legalização do comércio de entorpecentes, pondo fim à desastrosa guerra às drogas, que só elevou o consumo e ocasionou milhões de mortes, principalmente entre os moradores das zonas mais pobres.

O perfil passivista e anti-guerra não criou resistência a Ron Paul junto aos veteranos das forças armadas. Muito pelo contrário! Ele foi o candidato que mais recebeu doações desse segmento da população. Mais inclusive que Barack “Nobel Peace Price” Obama.

Entre as grandes realizações de Ron Paul, podemos destacar:

1) ele nunca votou a favor de um aumento de impostos;

2) ele nunca votou a favor de um orçamento público desbalanceado (com despesas maiores que as receitas);

3) ele nunca votou a favor de um aumento no salário dos parlamentares;

4)  ele nunca votou a favor de regulamentação para a internet;

5) ele votou contra a guerra do Iraque (mesmo contrariando o posicionamento do seu partido);

6) ele não participa do programa de pensão do congresso (não tem aposentadoria milionária paga com dinheiro público, como vossas excelências do Brasil);

7) ele devolve parte do orçamento do seu gabinete para o Tesouro americano.

Por fim, vale ressaltar que Ron Paul jamais abriu mão de seus princípios em troca de votos. Mesmo tendo uma base altamente fiel a ron paulele. No curto prazo, isso lhe custou a possibilidade de se tornar presidente dos Estados Unidos, mas no longo prazo pavimentou a estrada do respeito às liberdades civis e ajudou a educar uma larga parcela da população de seu país sobre a importância de buscar sempre defender o indivíduo contra a coerção estatal.

Paul também influenciou milhares de pessoas ao redor do mundo. Criando um movimento que cresce a cada dia e ajudando a disseminar as ideias libertárias em lugares que nunca haviam ouvido falar dessa linha de pensamento.

É por isso que sua vinda ao Brasil configura um evento histórico. Espero que, com ele de corpo presente em nosso país, a mídia dessa vez dê mais espaço para suas propostas. Vivemos um momento propício para ideias novas e a visita de Paul um mês antes das eleições pode ter um efeito sem precedentes e ajudar a abrir espaço para aqueles que realmente defendem a liberdade!

Quer saber mais sobre o admirável Ron Paul? Assista ao vídeo abaixo:

O outro livro de Paul já traduzido para o português é o “Definindo a Liberdade”.

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