A força do PT no Nordeste não é fruto do Bolsa Família

PTMuita gente costuma dizer que o PT ganhou três eleições consecutivas porque criou o Bolsa Família e assim montou um curral eleitoral. Para reforçar essa tese, as pessoas citam o fato de o partido sempre conquistar a maioria dos votos da região Nordeste, a com maior número de inscritos do programa.

Com certeza, a expansão de programas de transferência de renda contribui para a popularidade de um governo, mas de forma alguma explica as vitórias seguidas do PT. Primeiramente, é preciso destacar que o governo de Fernando Henrique Cardoso também tinha diversos programas de transferência de renda, segue abaixo uma pequena lista com alguns deles:

1) Bolsa escola;

2) Bolsa alimentação;

3) Programa de garantia de renda mínima;

4)  Programa auxílio-gás;

5) Programa bolsa renda.

Além desses cinco, houve diversas outras iniciativas voltadas para parcelas mais pobres. Durante esse período, Lula e o PT adotavam o mesmo discurso, atacando esses programas e dizendo que eles eram assistencialista e eleitoreiros, como se pode ver no vídeo abaixo.

Contudo, da mesma forma que os programas de transferência de renda não foram a razão das duas vitórias de FHC, eles também não explicam totalmente as vitórias petistas a meu ver.

Na minha opinião dois fatores foram mais determinantes:

1) Estratégia de comunicação;

2) Ambiente econômico favorável.

Comunicação

Em uma comparação feita entre o último ano de mandato de FHC e de Lula, vê-se que o petista gastou 70,3% a mais que o tucano em propaganda. Alem disso, dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República mostram que o governo Dilma já  superou o de Lula em gastos com publicidade.

Outro ponto importante é a repartição dos recursos. Enquanto a verba publicitária do governo FHC  era destinada a somente 499 veículos de comunicação, no governo Lula, inteligentemente, essa verba passou a ser repartida por 8.904 veículos, o que contribui para criar um clima favorável entre órgãos de imprensa local e emplacar mais pautas favoráveis ao governo federal.

Acrescenta-se a isso a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e os diversos outros veículos governamentais  de outras instituições do estado.

Por fim, é importante destacar que o PT soube se utilizar de maneira muito habilidosa também dos canais das entidades de sua base política como sindicatos, MST, ONGs entre outros.

Na lógica eleitoral, na maioria das vezes parecer é mais importante do que ser. Em outras palavras, com uma estrutura robusta de comunicação é possível criar uma imagem no imaginário popular, o que traz ganhos eleitorais e ajuda a agir de forma rápida para abafar notícias ruins.

Economia global a favor

O governo Lula teve a sorte de contar com um conjuntura econômica internacional favorável à exportação de commodities, pela abundância de investimentos externos, pela disponibilidade de crédito internacional a custos baixos. Teve também uma equipe econômica qualificada, sob o comando de Henrique Meirelles, que tiveram a perspicácia de manter bases estruturais que permitiram um fortalecimento do Real frente a outras moedas, o que significou um incremento no poder de compra da população e a entrada de produtos importados de melhor qualidade e preço que os produtos nacionais.

Soma-se a isso, uma visão inteligente de não colocar barreiras para a entrada de capital estrangeiro, tanto produtivo como especulativo, o que permitiu um aumento no investimento direto no país. Como em qualquer lugar, as empresas procuram maximizar seus ganhos buscando os melhores preços. Nesse contexto, o Nordeste oferecia mão de obra farta e a preços mais baixos que o Sudeste e o Sul. Ainda, políticos da região e também o poder federal deram incentivos polpudos para que empresas se instalassem no Nordeste, o que contribuiu para um aumento da qualidade de vida dos habitantes.

Tudo isso aliado à política de aumentos paulatinos do salário mínimo, já introduzida pelo governo de Fernando Henrique, ajudou a criar um ambiente de bem estar geral. Naturalmente, as pessoas associaram esses ganhos ao grupo político no poder naquele momento, ou seja, o PT.

O partido soube se aproveitar muito bem desse bom momento mundial para se colocar como responsável pela bonança. Fazendo uso de seu aparato muito bem armado de comunicação, conseguiu auferir ganhos eleitorais e ampliar sua bancada no congresso e seus representantes municipais também.

Conclusão

Claro que um projeto político envolve diversas outras variáveis e com certeza outros fatores também contribuíram com a atual hegemonia do PT. No entanto,  a existência do Bolsa Família não me parece o ingrediente mais relevante. A oposição ao insistir nessa tecla, age de maneira míope e só contribui para que petistas colem neles a imagem de elitista e inimiga dos pobres.

Muitos dos ganhos que o Brasil conseguiu obter com o boom mundial, que durou até 2010, foi fruto de medidas liberalizantes, que permitiram a entrada de produtos estrangeiros de boa qualidade e baixo preço, a apreciação do Real, que significou uma elevação do poder de compra de todos e uma política monetária menos perdulária, que ajudou a manter a inflação relativamente baixa, protegendo a renda da população, especialmente dos mais pobres. Por fim, destaco ainda a criação da Lei Geral da Micro e Pequena Empesa, que ajudou a reduzir a indecente carga tributária sobre o pequenos negócios e facilitou a abertura de empresas.

O empreendedor acredita de verdade no país

O Brasil é um país estranho. Aqui temos uma legião de fãs de chefes políticos. Outro dia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um embate com Dilma Rousseff e um monte de gente se mobilizou na internet para defender cada lado. Nas eleições desse ano só se fala do poder e do carisma do presidente Lula, que pode ajudar os candidatos do seu partido.

Contudo, se pararmos para pensar, um político, principalmente um presidente da república, ao contrário de todos os brasileiros, não trabalha com a escassez. Ele conta com uma fonte de financiamento constante, que são os tributos cobrados todo mês dos cidadãos. Além disso, ele é eleito exatamente para fazer o melhor uso dessa verba. Logo, não deveria ser objeto de exaltação.

Enquanto isso, os empreendedores são relegados a um papel secundário. E quando digo empreendedores, não me refiro a Eike Batista ou Abílio Diniz. Esses e alguns poucos outros grandes também contam com fácil acesso a linhas de crédito subsidiada, que são custeada com o dinheiro que deveria ir para os serviços públicos.

Os admiráveis mesmo são os empresários de micro e pequenos negócios, que fornecem bens e serviços em lugares longínquos. Em várias pequenas cidades do interior, quem mais acredita na economia local são os empresários, não os políticos. Quem realmente quer oferecer algo para os concidadãos não é o prefeito, é o dono da venda da esquina, o padeiro, o lojista.

Tive oportunidade de visitar municípios que compõem os territórios da cidadania, regiões caracterizadas pelo baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Nesses locais, há muitos prefeitos que não investem na cidade, apesar de terem dinheiro disponível para isso. Aliás, há muitos que nem moram no município que “administram”, ou seja, não creem em um futuro melhor e não enxergam perspectivas.

Contudo, em todos os locais que visitei, SEMPRE havia empreendedores que, independente de viverem em um contexto mais pobre, investem em seus negócios e apostam na melhora da cidade.

Então, da próxima vez que você for idolatrar um político, lembre que eles, na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, terão recurso garantido por lei. Já o empresário de micro e pequeno negócio, não. Sua atividade é fruto de persistência, dedicação e fé no futuro. Ou seja, digno de toda admiração do mundo!

Assista abaixo um vídeo que mostra o poder transformador do empreendedor

Gilmar Mendes e Lula – uma denúncia e nenhuma prova

Atenção! Este texto não é uma defesa do PT, nem uma negação do mensalão. É apenas uma contextualização de  fatos somado a uma análise pessoal. Leia sem paixão ideológica.

O juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, afirmou que o ex-presidente Lula propôs a ele que o julgamento do mensalão fosse adiado em troca de uma blindagem na CPMI do Cachoeira. De acordo com o magistrado, o encontro aconteceu no escritório do ex-ministro Nelson Jobim, no dia 26 de abril deste ano.

Sem entrar no mérito da veracidade da declaração, é preciso levar em conta alguns pontos.

1) Nelson Jobim, a única testemunha, desmentiu o fato;

2) Se a proposta de fato ocorreu, configurou-se um caso de chantagem, assim o procedimento mais correto seria um processo judicial. Contudo, Mendes preferiu se expressar por meio de entrevista à revista Veja;

3) O Partido dos Trabalhadores, com apoio de Lula, quer que jornalistas da Veja sejam convocados para a CPMI do Cachoeira, o que coloca a revista em posição questionável;

4) O juiz diz que a proposta foi feita há um mês. Contudo, ele só a trouxe à tona agora. É preciso, para uma análise mais clara dos fatos, lembrar que nos últimos dias várias reportagens apontaram relações próximas de Mendes e do senador Demóstenes Torres, um dos principais investigados da CPMI;

Conclusão, na minha opinião, o mensalão existiu e deve ser julgado o mais rápido possível. O ex-presidente tem feito declarações infelizes dizendo que o esquema foi uma teoria conspiratória armada pela imprensa junto com a oposição, o que tem acirrado as rivalidades.

A Veja tinha relações com Carlinhos Cachoeira, mas pelo menos até agora, nada que ultrapasse os limites da liberdade de imprensa e da relação jornalista/fonte. O jornalismo é feito de versões de fatos. Cada veículo pode seguir uma linha de análise dos fatos, a da Veja talvez possa não ser o mais apropriado, na minha visão.

Por fim, acho que Gilmar Mendes inventou a história. Penso isso não porque gosto ou não do ex-presidente Lula, mas porque a única testemunha presente desmentiu a versão e Mendes já fez acusações infundadas antes. Basta lembrar que ele disse que seu gabinete estava sendo grampeado, o que foi desmentido depois por investigações da Polícia Federal.

Bebidas alcoólicas não são a causa da violência nos estádios

O veto à venda de bebidas alcoólicas nos estádios é uma cortina de fumaça. O poder público fez uso dessa medida como um paliativo ineficiente para a questão da segurança pública e da impunidade.

Enquanto os delinquentes que participam de brigas não forem exemplarmente punidos, nada mudará. O que se vê são governantes e clubes tomando medidas ilusórias, para fingir que estão fazendo algo. Primeiro veio a proibição da venda de bebidas alcoólicas, agora vem a história de banir as organizadas. Já tem quase uma década que a venda bebida foi proibida e a violência não diminuiu.

Além disso, a proibição é uma medida paternalista, que trata os torcedores como seres inconsequentes, que precisam ser tutelados para não cometerem erros. Assim, os justos pagam pelos pecadores e os bandidos continuam livres.

É inexplicável esse tipo de posicionamento. Já ficou claro que punições fortes, diminuem demais o número de infrações. Um exemplo é a perda de mando de campo e a proibição da presença de torcida nos jogos, quando torcedores jogarem objetos em campo.

Depois que essa medida, que atinge a parte mais sensível dos clubes (o bolso), foi adotada quase não vemos mais por aqui pessoas jogando coisas no gramado.

Nos Estados Unidos, em todas as modalidades, bebidas são vendidas nos estádios, nos campeonatos europeus de futebol, também. Então, por que aqui os torcedores devem ser tutelados no seu consumo? Por que torcedores que assistem aos jogos em bares podem beber e os que assistem nos estádios, não? Qual a explicação?

Está mais do que na hora de punirmos realmente os bandidos que participam de brigas e passar a tratar os torcedores como cliente. Em 2003, quando da aprovação do Estatuto do Torcedor, o ex-presidente Lula disse que nunca mais o torcedor seria tratado como gado no Brasil.

Ele também alertou que “no Brasil, tem lei que pega e lei que não pega. Para a nova lei pegar, é preciso que as pessoas responsáveis desse País comecem a falar dela, comecem a alertar, para que o povo [torcedor] seja respeitado na sua cidadania”. Então, esse post é minha contribuição para que depois de 9 anos o estatuto passe a ser realmente respeitado e cumprido. Chega de paliativos!

Personalidade da marca X marca da personalidade

Dois fatos marcaram esta semana: o afastamento do apresentador Rafinha Bastos da bancada do CQC e a morte do empresário Steve Jobs. Correndo o imenso risco de comparar uma decisão administrativa a um falecimento, enxergo um ponto em comum entre os dois acontecimentos: o conflito de um grande personagem com a empresa (ou programa) do qual é parte.

Tanto Rafinha Bastos (em menor escala), quanto Steve Jobs (indiscutivelmente) criaram personas que se confundem e, em certos momentos, até concorrem com a marca que defendem. Durante o CQC da última segunda, o tópico mais comentado no Twitter era o afastamento do co-apresentador do programa e não as matérias exibidas pelo semanal.

Já no caso de Jobs, muitas vezes a ansiedade pelos aparatos da Apple era quase que diretamente proporcional à expectativa em relação a apresentação que Steve faria. Essa situação não é nova e pode ser identificada em vários outros casos: Mark Zuckerberg X Facebook; Lula X PT; Romário X seleção de 94; Obama x Partido Democratas, entre outros.

A grande questão é identificar até que ponto o carisma do personagem agrega valor à marca (partido, programa, seleção etc). Em alguns casos, acontece o contrário e a marca acaba ficando menor que seu representante.

Polêmicas desnecessárias

Cesar Benjamin, ex-dirigente petista

Cesar Benjamin, conhecido por Cesinha, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi também o mais jovem preso político do Brasil, quando aos 17 anos foi capturado por agentes do regime militar. No livro “1968 – o que fizemos de nós” , escrito por Zuenir Ventura, Cesinha faz um relato bem crível da possível origem do mensalão, remetendo a atos de José Dirceu e Lula dentro do próprio partido, relacionados a uso de dinheiro para compra de apoio político.

Além disso, Benjamin faz uma crítica estruturada do Governo Lula, tomando por base argumentos de esquerda, ou seja, é um pensador socialista se opondo à administração do PT com argumentos sólidos. Contudo, todos seus argumentos tornaram-se turvos depois de um artigo, no qual ele acusa o ex-presidente de tentar “subjugar” um garoto na época em que estava preso.

A partir desse momento, não se pode mais ter certeza se Benjamin faz denúncias verídicas ou se age de forma rancorosa apenas para prejudicar a imagem de Lula.

Lars von Trier exibe sua tatuagem - foto AFP

Muitas vezes uma polêmica desnecessária pode ofuscar grandes pensadores, políticos ou artistas.Foi o que aconteceu com Benjamin. Abordo esse tema para tratar de situação semelhante, envolvendo Lars von Trier, que se declarou nazista durante o festival de Cannes. O cineasta acabou banido do encontro e manchou uma trajetória de sucesso, que conta com filmes como “Dogville” e “Ondas do destino”.

É preciso saber o momento de compartilhar alguma informação e é preciso ter sensibilidade para saber o que se deve ser declarado. A prática do falar o que pensa, doa a quem doer, se levada a extremos, pode mandar gênios para o ostracismo.