As privatizações ajudaram a acabar com a hiperinflação

charge_privatizar_ou_estatizarMais uma eleição presidencial se aproxima e, infelizmente, voltaremos a ver um candidato do PT dizer que o PSDB entregou o “patrimônio do povo brasileiro” ao setor privado no processo de privatização. É desanimador ver esse tipo de discussão, pois no Partido dos Trabalhadores há quadros qualificados que sabem que essa acusação é totalmente demagógica e mentirosa.

Para entender  o porquê é preciso voltar ao contexto da época. Durante um longo período, especialmente no período da ditadura militar (cujo modelo econômico inspira hoje nosso ministro da Fazenda, diga-se) o Estado brasileiro, em todas as suas instâncias gerou déficits públicos crescentes, que posteriormente passaram a ser financiados via desvalorização monetária. Em outras palavras, para poder pagar suas dívidas, os governos brasileiros seguiram dois caminhos: a) endividamento externo e b) impressão de moeda, que gera inflação de preços.

Esse hiper endividamento era resultado também  de um caminhão de empresas e bancos públicos, que oneram pesadamente o orçamento público, o que aumentava o déficit e alimentava o processo inflacionário. Nesse contexto, o Plano Real tinha duas estratégias principais para acabar com a inflação: a) diminuir a dívida pública, por meio, principalmente da venda de ativos para o setor privado (privatizações) e b) criar controles para o endividamento do governo em suas três instâncias, por meio, principalmente, da Lei de Responsabilidade Fiscal. Houve outras medidas muito importantes que não vou tratar aqui como a criação da URV, o câmbio fixo, entre outras.

Em outras palavras, a privatização de empresas públicas foi um passo decisivo para acabar com a estratosférica inflação que corroía o poder de compra do povo brasileiro e atrasa o progresso do país, porque inviabilizava qualquer tipo de planejamento de médio e longo prazo. Não houve nenhum aspecto ideológico envolvido. O PSDB está longe, muito longe de ser um partido liberal (ou, como preferem os petista, neoliberal). É um partido social democrata, de esquerda. As privatizações foram apenas um artifício usado para combater um cenário deplorável, algo contextual.

Então, se o PT deseja criticar as privatizações, deve ser claro e explicar que também preferia o antigo cenário, com inflação de mais de 1000% ao ano (é isso mesmo! Mil porcento. Eu não errei no número de zeros). Contudo, como disse antes, é claro que o PT sabe que repassar ativos para o setor privado é um mecanismo de controle da dívida pública. Tanto sabe que agora executa processos extremamente similares. Só muda o nome e a intensidade da transferência.

Seria muito mais honesto e produtivo que essa balela de entregar  o “patrimônio do povo brasileiro” fosse de vez enterrada para que o debate fosse sobre problemas e ameaças verdadeiras e não sobre espantalhos eleitorais. Uma coisa é dizer que o processo de privatização pode ser melhorado. Outra totalmente diferente é dizer que era viável ele não ter acontecido e omitir que foi um passo decisivo para acabar com a inflação e retirar milhões de brasileiros da pobreza em poucos meses. O progresso do Brasil depende da superação do amadorismo político que vem pautando nossas eleições nos últimos tempos.

Um PT, duas políticas econômicas

Muita gente costuma enxergar os mandatos do PT de maneira monolítica, como se todos tivessem seguido os mesmos mandamentos econômicos.  Contudo, há uma diferença sensível da política econômica do 1º mandato de Lula e a política econômica do 2º mandato de Lula e do mandato de Dilma. Para ser mais exato, há um contraste entre a gestão Palocci-Henrique Meirelles e Guido Mantega-Tombini.

A equipe econômica comandada por Palocci- Meireles optou por uma gestão focada em reformas microeconômicas de desoneração fiscal (Simples Nacional), superávit fiscal com controle da expansão de gastos, não intervenção na taxa de câmbio, foco na busca pelo centro da meta de inflação, Selic alta e independência do Banco Central em relação ao Planalto.

Já a equipe capitaneada por Guido Mantega buscou um viés mais desenvolvimentista, ampliando a intervenção do governo na economia e ressuscitando ideias do tempo do governo militar de Geisel e apostando no barateamento forçado do crédito por meio dos bancos públicos, financiamento a juros subsidiados a grandes grupos empresariais via BNDES, queda induzida da taxa Selic, manipulação dos preços dos produtos e serviços das empresas públicas visando o controle da inflação e interferência no câmbio com objetivo de beneficiar exportadores.

Os resultados das duas políticas podem ser vistos nos gráficos abaixo. Enquanto no período de 2003-2006 a inflação teve tendência de queda, com a chegada da equipe econômica desenvolvimentista, a tendência se inverteu.

brazil-inflation-cpi (1).png Palocci

brazil-inflation-cpi

Outra diferença pode ser notada no câmbio. Enquanto no 1º período o real se valorizou frente ao dólar, ampliando o poder de compra do cidadão brasileiro, no segundo a moeda nacional sofreu desvalorização contínua.

câmbio palocci

câmbio Dilma

O resultado disso foi uma expansão da dívida externa brasileira sob a égide da política expansionista da equipe de Mantega, revertendo a tendência de queda vista no período anterior, que ocasionou a  quitação da dívida junto ao FMI em 2005.

Dívida externa palocci

dívida externa Dilma

Não estou dizendo aqui que o Brasil dos tempos de Palocci fosse um país rico ou um paraíso na terra. O ponto é demonstrar como a política desenvolvimentista que sucedeu o primeiro mandato de Lula resultou em aumento de preço, perda de poder de compra da população, aumento da inflação e aumento do endividamento externo. Em outras palavras, houve um prejuízo na liberdade econômica da população.

Uma curiosidade é que Palocci é odiado por várias alas do PT, que o consideram um “neoliberal”. Na verdade, o programa petista sempre foi baseado em teses desenvolvimentistas. A abordagem mais ortodoxa do início da era petista foi fruto mais do contexto da época, quando o mercado reagiu com nervosismo exacerbado à chegada de Lula ao poder, temendo que ele desse calote nos credores externos. Esse stress do mercado levou Lula a escrever a carta aos brasileiros, na qual se comprometia a manter as diretrizes econômicas adotadas desde do advento do Plano Real. Ou seja, com os bons resultados econômicos e a grande popularidade de Lula, o PT teve cenário favorável para implantar  seu verdadeiro modelo econômico.

Capitalismo de compadres – como funciona a captura regulatória

falso capitalista

Até a década de 90, o mercado brasileiro tinha uma forte intervenção do estado. Encontrávamos aqui diversas empresas e bancos estatais, o que retirava muito da eficiência e da competitividade do nosso país. Esse processo foi muito intensificado pela ditadura militar, que torou milhões em mega projetos destinados ao fracasso, como a transamazônica, acreditando que o maior protagonista do mercado deveria ser o estado, e não os empreendedores.

A partir do governo de Fernando Collor, começou no Brasil um processo muito tímido de desestatização da economia. Foram vendidas algumas empresas públicas e algumas outras foram fundidas. Entre os incontáveis e infelizes erros de seu mandato, o modelo de privatização de Collor, capitaneado por Ciro Gomes (ministro da economia na época), pode ser visto como um ponto positivo, pois realmente retirou a presença do estado de determinados setores.

Diferentemente do que prega grande parte da esquerda brasileira, o governo FHC não reduziu a presença do estado na economia por meio das vendas de grandes empresas governamentais. Em muitos casos, o que ocorreu foi apenas a troca da forma de atuar. Em vez de um monopólio estatal, criou-se um oligopólio público-privado, no qual os lucros ficam nas mãos de grandes corporações, que por sua vez fazem agrados aos seus reguladores.

O que aconteceu no modelo tucano de privatização foi a chamada captura regulatória, na qual as agência reguladoras, criadas inicialmente para proteger os consumidores, passam a atuar como lobistas das grandes empresas do setor. Um grande exemplo disso foi uma norma criada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que “obriga” as empresas a garantir pelo menos 30% da velocidade da internet contratada.  Em outras palavras, seria o mesmo que o governo baixar uma portaria dizendo que o padeiro tem que vender pelo menos 30% do pãozinho para você. Soa ridículo para você? É porque é realmente ridículo. Pense comigo, quem essa norma está realmente protegendo: as empresas ou os consumidores?

Outro exemplo interessante foi o acordo que a  Agência Nacional de Aviações Civil (Anac) fez com as empresas do setor para que seus servidores tenham até 75% de desconto em passagens aéreas. Ou seja, sinal inequívoco de compadrio. Em troca, é claro, a Agência irá criar mais regulações que impeçam a entrada de novos concorrentes no mercado de aviação civil, elevando o lucro das suas reguladas.

O atual modelo de transforma empresas privadas em parte do estado, ou seja, em vez de diminuir a participação governamental, ele amplia a influência política e transfere renda da população para a mão de grandes corporações. O modelo criado pelo governo do PSDB foi totalmente abraçado pelo governo socialista do PT, que acrescentou à cesta de maldades o financiamento público com juros subsidiados a grandes empresas. A maior parte dos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), 57%, ficou concentrado em 12 grandes empresas, sendo duas estatais e dez privadas (eu diria semi-estatais).

Conclusão, o baixo crescimento brasileiro atual é fruto de um sistema corporativista, que concentra a renda na mão de poucas grandes corporações e dificulta a vida de pequenos e médios empreendedores. Os grandes capitalistas estão sempre interessados em se aliar ao governo, pois suas empresas têm força para superar algumas regulações sem maiores problemas. Já os pequenos negócios não têm fôlego e recursos o suficiente para sobrepor as barreiras burocráticas e acabam falindo antes de se estabilizarem.

Esse círculo do mal gera um efeito perverso de aumento de preços, baixa qualidade dos serviços, transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos e diminuição do bem estar da população. A solução é um livre mercado genuíno, aliado a uma transferência de renda focada na população mais pobre. Chega de engordar a conta de capitalista fajutos!

A força do PT no Nordeste não é fruto do Bolsa Família

PTMuita gente costuma dizer que o PT ganhou três eleições consecutivas porque criou o Bolsa Família e assim montou um curral eleitoral. Para reforçar essa tese, as pessoas citam o fato de o partido sempre conquistar a maioria dos votos da região Nordeste, a com maior número de inscritos do programa.

Com certeza, a expansão de programas de transferência de renda contribui para a popularidade de um governo, mas de forma alguma explica as vitórias seguidas do PT. Primeiramente, é preciso destacar que o governo de Fernando Henrique Cardoso também tinha diversos programas de transferência de renda, segue abaixo uma pequena lista com alguns deles:

1) Bolsa escola;

2) Bolsa alimentação;

3) Programa de garantia de renda mínima;

4)  Programa auxílio-gás;

5) Programa bolsa renda.

Além desses cinco, houve diversas outras iniciativas voltadas para parcelas mais pobres. Durante esse período, Lula e o PT adotavam o mesmo discurso, atacando esses programas e dizendo que eles eram assistencialista e eleitoreiros, como se pode ver no vídeo abaixo.

Contudo, da mesma forma que os programas de transferência de renda não foram a razão das duas vitórias de FHC, eles também não explicam totalmente as vitórias petistas a meu ver.

Na minha opinião dois fatores foram mais determinantes:

1) Estratégia de comunicação;

2) Ambiente econômico favorável.

Comunicação

Em uma comparação feita entre o último ano de mandato de FHC e de Lula, vê-se que o petista gastou 70,3% a mais que o tucano em propaganda. Alem disso, dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República mostram que o governo Dilma já  superou o de Lula em gastos com publicidade.

Outro ponto importante é a repartição dos recursos. Enquanto a verba publicitária do governo FHC  era destinada a somente 499 veículos de comunicação, no governo Lula, inteligentemente, essa verba passou a ser repartida por 8.904 veículos, o que contribui para criar um clima favorável entre órgãos de imprensa local e emplacar mais pautas favoráveis ao governo federal.

Acrescenta-se a isso a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e os diversos outros veículos governamentais  de outras instituições do estado.

Por fim, é importante destacar que o PT soube se utilizar de maneira muito habilidosa também dos canais das entidades de sua base política como sindicatos, MST, ONGs entre outros.

Na lógica eleitoral, na maioria das vezes parecer é mais importante do que ser. Em outras palavras, com uma estrutura robusta de comunicação é possível criar uma imagem no imaginário popular, o que traz ganhos eleitorais e ajuda a agir de forma rápida para abafar notícias ruins.

Economia global a favor

O governo Lula teve a sorte de contar com um conjuntura econômica internacional favorável à exportação de commodities, pela abundância de investimentos externos, pela disponibilidade de crédito internacional a custos baixos. Teve também uma equipe econômica qualificada, sob o comando de Henrique Meirelles, que tiveram a perspicácia de manter bases estruturais que permitiram um fortalecimento do Real frente a outras moedas, o que significou um incremento no poder de compra da população e a entrada de produtos importados de melhor qualidade e preço que os produtos nacionais.

Soma-se a isso, uma visão inteligente de não colocar barreiras para a entrada de capital estrangeiro, tanto produtivo como especulativo, o que permitiu um aumento no investimento direto no país. Como em qualquer lugar, as empresas procuram maximizar seus ganhos buscando os melhores preços. Nesse contexto, o Nordeste oferecia mão de obra farta e a preços mais baixos que o Sudeste e o Sul. Ainda, políticos da região e também o poder federal deram incentivos polpudos para que empresas se instalassem no Nordeste, o que contribuiu para um aumento da qualidade de vida dos habitantes.

Tudo isso aliado à política de aumentos paulatinos do salário mínimo, já introduzida pelo governo de Fernando Henrique, ajudou a criar um ambiente de bem estar geral. Naturalmente, as pessoas associaram esses ganhos ao grupo político no poder naquele momento, ou seja, o PT.

O partido soube se aproveitar muito bem desse bom momento mundial para se colocar como responsável pela bonança. Fazendo uso de seu aparato muito bem armado de comunicação, conseguiu auferir ganhos eleitorais e ampliar sua bancada no congresso e seus representantes municipais também.

Conclusão

Claro que um projeto político envolve diversas outras variáveis e com certeza outros fatores também contribuíram com a atual hegemonia do PT. No entanto,  a existência do Bolsa Família não me parece o ingrediente mais relevante. A oposição ao insistir nessa tecla, age de maneira míope e só contribui para que petistas colem neles a imagem de elitista e inimiga dos pobres.

Muitos dos ganhos que o Brasil conseguiu obter com o boom mundial, que durou até 2010, foi fruto de medidas liberalizantes, que permitiram a entrada de produtos estrangeiros de boa qualidade e baixo preço, a apreciação do Real, que significou uma elevação do poder de compra de todos e uma política monetária menos perdulária, que ajudou a manter a inflação relativamente baixa, protegendo a renda da população, especialmente dos mais pobres. Por fim, destaco ainda a criação da Lei Geral da Micro e Pequena Empesa, que ajudou a reduzir a indecente carga tributária sobre o pequenos negócios e facilitou a abertura de empresas.

Você paga a escola, mas quem decide a educação do seu filho é o governo!

charge_escola_publicaMuita gente defende o acesso irrestrito à educação. Porém, pouquíssima gente defende o direito das famílias de escolher que tipo de educação querem para seus filhos. Ou seja, todos são obrigados a custear a educação pública, mas somente os burocratas do governo podem decidir qual metodologia de ensino será utilizada e quais conteúdos serão ministrados.

Nos Estados Unidos, vêm ganhando força um movimento chamado “School Choice”. Ele defendem modelos alternativos de financiamento da educação, como os vouchers, propostos pelo economista Milton Friedman. Essa estratégia consiste em dar uma espécie de cheque para a família poder matricular seu filho na escola que melhor atender suas necessidades culturais, educacionais e sociais.

Dessa forma, cria-se um ambiente competitivo, que estimula as escolas a oferecerem cada vez melhores serviços para atraírem mais alunos. Na cidade de Milwaukee, 90% dos estudantes que participam do programa de vouchers vão para a universidade.

No modelo adotado no Brasil, somente as pessoas que abrem mão das escolas públicas é que tem direito de optar por outros modelos de educação. O governo age de forma autoritária, além de impor suas vontades na escola pública, quer também mandar no setor privado e até tomar a guarda dos filhos de quem resiste a suas ordens. Foi o caso de Cleber Nunes. Em 2008, o Ministério Público abriu um processo contra ele, simplesmente porque ele queria educar seus filhos em casa. Por pouco, ele não perdeu a guarda dos filhos.

Outro problema é que governantes estão mais preocupados em impor suas ideologias do que em realmente proporcionar educação de qualidade. É o que mostra o diretor da escola pública de São Paulo mais bem avaliada no Enem de 2009, Camilo da Silva Oliveira. ” A esquerda até hoje acha que a democracia é o principal debate para a escola. Você pega o PT, eles estão discutindo eleição para diretor de escola. Uma bobagem. Deveria pegar os melhores quadros para dirigir a escola. Isso aqui não é sindicato. Estou me aposentando e não vejo caminho. A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados. O Estado só atrapalha. Aquelas que seguiram a linha, se esfacelaram”.

Ou seja, a escola tornou-se um centro político, quando deveria ser um centro educacional. Com isso, o poder de influência passou a ser mais valorizado que o mérito. Os diretores são os melhores políticos, não os melhores gestores. O atual modelo tira o foco dos dirigentes escolares, como explica Camilo. “Não consigo uma reforma porque não participo das reuniõezinhas, não vou lá ficar bajulando. Eu percorria gabinete de deputado para pedir reforma. Desisti. É indigno para um diretor”.

Resumo da obra, grande parte das escolas públicas está na mão de pessoas que buscam visibilidade política e que representam interesses corporativistas. E o pior de tudo é que os mais pobres não têm escolha. São obrigados a se submeter aos modismos da vez. Enquanto isso não mudar, continuaremos na rabeira dos testes internacionais.

Brasil sem maquiagem

botox278velhanoespelhoO Brasil tem vivido um momento de otimismo elevado nos últimos anos. Um crescimento médio de 4,5% no período de 2003 a 2010 ajudou a criar uma sensação de que o país entrou d evez na era da bonança e que o crescimento seguria forte infinitamente. Contudo, os fatos começaram a desmentir as versões.

O Governo, no entanto, no afã de consevar a popularidade tem divulgados dados um tanto questionáveis. Um deles, como aponta o eocnomista Adolfo Sachsida do Ipea, é a inflação. De acordo com projeções do Banco Central, ela fechará 2012 em 5,45%, ou seja, um ponto percentual acima da meta, que é 4,5%.

Porém, esse número não reflete a realidade. Como mostrou Sachsida, a metodologia de cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que baliza o índice de inflação, foi alterado em 2012. Na metodologia antiga, a alta de preços estaria 0,3% maior. Ou seja, 5,75%. Não para por aí! A equipe econômica, na tentativa de esconder a inflação, tem se utilizado de artifícios tributários, como desonerações seletivas para setores que pressionam o preços. De acordo com o pesquisador do Ipea, mostra que se as isenções não tivessem sido empregadas, a inflação estaria outros 0,3% maior. Em suma, a inflação real deste ano é 6%, não os 5,45% divulgados pelo Banco Central.

Pleno emprego?

O país cresceu pouco mais de 2,5% ano passado, neste ano corre o risco de crescer menos de 1%. No entanto, as estatísticas de desemprego continuam caindo e batendo recordes históricos de baixa. Como é possível? O Economista Leandro Roque analisou a metodologia do IBGE para tentar encontrar a resposta.

O primeiro questionamento a surgir foi: como pode o levantamento do IBGE apontar um desmeprego de 5,3% e o da DIEESE apontar 10,5%? O que afinal o primeiro entende como emprego?

“Desde que comecei a prestar mais atenção no assunto — e, principalmente, desde que me inteirei melhor da metodologia —, perdi completamente o interesse pelo indicador.  Ele não indica nada.  A metodologia do IBGE é totalmente ridícula.  Um malabarista de semáforo é considerado empregado.  Um sujeito que vende bala no semáforo também está empregadíssimo.  Um sujeito que lavou o carro do vizinho na semana passada em troca de um favor é considerado empregado (ele entra na rubrica de ‘trabalhador não remunerado’).  Se um sujeito estava procurando emprego há 6 meses, não encontrou nada e desistiu temporariamente da procura, ele não está empregado mas também não é considerado desempregado.  Ele é um “desalentado”.  Como não entra na conta dos desempregados, ele não eleva o índice de desemprego”, explica Roque.

O IBGE divide a população economicamente ativa nas seguinte scategorias: Pessoas Desalentadas, Pessoas desocupadas, Pessoas Subocupadas por Insuficiência de Horas Trabalhadas, Pessoas Ocupadas com Rendimento/Hora menor que o Salário Mínimo/Hora, Pessoas Marginalmente Ligadas à PEA (População Economicamente Ativa).

Dessas, somente a taxa de “pessoas desocupadas” é considerada como desempregada. As desalentadas não contam e as outras são consideras empregadas. Roque fez um novo reagrupamento dessas categorias, consoiderando desempregodos os grupos:

1) pessoas desocupadas;

2) trabalhadores não remunerados;

3) pessoas com rendimento/hora menor que o salário mínimo/hora (aquele sujeito que faz vários bicos, mas cujo rendimento mensal é menor que o salário mínimo);

4) pessoas marginalmente ligadas à PEA (pessoas que não estavam trabalhando na semana da pesquisa mas que trabalharam em algum momento dos 358 dias anteriores à pesquisa e que estavam dispostas a trabalhar); e

5) pessoas desalentadas.

Resultado: taxa de desmeprego no mês de outubro foi de 21,4%. O que significa dizer que um em cada cinco brasileiros ou não tem emprego, ou tme uma ocupação precária que rende menos que um salário mínimo por mês.

Resumo da ópera: é inegável que o país está melhor do que a tempos atrás, até mesmo porque a demanda de gigantes como China e Índia por commodities ajuda a manter o Brasil no azul. Contudo, uma nação que convive com crescimento menor que 3%, inflação na casa de 6% e um quinto da força de trabalho desempregada ou em trabalho precário não pode sair pelo mundo querendo impor seu modelo econômico.

A direita precisa de voz

No Brasil, após três eleições consecutivas vencidas pelo Partido do Trabalhadores (legenda de centro-esquerda), houve um esvaziamneto de partidos de direita. Por um desvio histórico, a expressão “direita” acabou sendo associada a grupos que apoiaram a ditadura militar e, posteriormente, a um ajuntamento de engravatados elitistas, que estariam alinhados com grandes multinacionais, relegando a parcela mais pobre.

Essa ideia acabou reforçada após o fatídico episódio no qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse para seu partido, o PSDB, abandonar o “povão”, situação que piorou depois que o mesmo FHC porpôs que a legenda adotasse um slogan em inglês (Yes, we care”!).

Dessa forma, por razões eleitoreiras, muitos simpatizantes de ideias mais conservadoras e voltadas à eficiência da iniciativa privada, aliada a diminuição da máquina pública e ao papel regulador do Estado, se intimidaram e passaram a apoiar políticas estatizantes.

Quem aproveitou para assumir a direita foram políticos com discursos racistas e moralistas, como alguns representantes de grupos religiosos ou de militares ultra-nacionalistas, como Jair Bolsonaro do PP do Rio de Janeiro.

Assim, uma parcela da população ficou sem quem a representasse, escondida no que a pesquisadora Elisabeth Noelle-Neumann chama de espiral do silêncio, que ocorre quando uma posição ideologicamente majoritária inibe o restante de expressar uma opinião contrária, excluindo-a da esfera pública.

Na minha opinião, essa situação leva a um empobrecimento do debate político. O confronto de ideias é salutar para a construção da sociedade. Para isso, é preciso que todos possam se manifestar livremente. A própria esquerda perde com o sumiço da direita, pois os partidos passam a adotar discursos muito semelhantes, levando o eleitor a crer que não há diferenciação programática entre as legendas. Dessa forma, para o bem do debate público, é necessário que haja um segundo grito dos excluídos e a direita volte a se manifestar. Assim, mesmo que seja para ser derrotada novamente, pelo menos terá marcado posição e enriquecido o embate político.

Personalidade da marca X marca da personalidade

Dois fatos marcaram esta semana: o afastamento do apresentador Rafinha Bastos da bancada do CQC e a morte do empresário Steve Jobs. Correndo o imenso risco de comparar uma decisão administrativa a um falecimento, enxergo um ponto em comum entre os dois acontecimentos: o conflito de um grande personagem com a empresa (ou programa) do qual é parte.

Tanto Rafinha Bastos (em menor escala), quanto Steve Jobs (indiscutivelmente) criaram personas que se confundem e, em certos momentos, até concorrem com a marca que defendem. Durante o CQC da última segunda, o tópico mais comentado no Twitter era o afastamento do co-apresentador do programa e não as matérias exibidas pelo semanal.

Já no caso de Jobs, muitas vezes a ansiedade pelos aparatos da Apple era quase que diretamente proporcional à expectativa em relação a apresentação que Steve faria. Essa situação não é nova e pode ser identificada em vários outros casos: Mark Zuckerberg X Facebook; Lula X PT; Romário X seleção de 94; Obama x Partido Democratas, entre outros.

A grande questão é identificar até que ponto o carisma do personagem agrega valor à marca (partido, programa, seleção etc). Em alguns casos, acontece o contrário e a marca acaba ficando menor que seu representante.

Os partidos políticos vão desaparecer!

O aprofundamento da democracia vai acabar com os partidos

Os partidos políticos faliram em seu papel de agrupadores ideológicos. Não é mais possível ingressar em alguma agremiação por seus discursos. Em busca de relevância e ascensão, os partidos aceitam filiados tão antagônicos, que nenhuma doutrina se sustenta.

O sociólogo Roberto da Matta diz que a maior contribuição da chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder foi acabar com ilusões de salvacionismo e trazer a disputa política para o campo da prática, não apenas da retórica.

Parece-me que, depois dos dois grandes partidos pólos PT e PSDB terem governado o país, o papel dos partidos se tornou irrelevante na montagem dos projetos nacionais. A população passou a ver a política de forma mais realista e a acreditar mais em pessoas do que em partidos.

Olhando em perspectiva, soa bastante ingênuo ter-se acreditado que uma agremiação abrigaria somente pessoas capacitadas e éticas. Os partidos são recortes da sociedade e, dessa forma, carregam as mesmas características.

Alguns acontecimentos mostram a irrelevância dos partidos como representantes político-ideológicos da sociedade. Por exemplo, a lei da Ficha Limpa, que mais se aproximou do clamor popular, não foi produzida dentro dos partidos e sim em organizações da sociedade civil e do poder judiciário.

Como funcionará a democracia pós-partidos?

Outro ponto sintomático foi a discussão da descriminalização das drogas. Quando Fernando Henrique Cardoso trouxe o tema a debate, pareceu que o PSDB estava tomando posição clara sobre o tópico, porém, pouco depois das entrevistas do ex-presidente, houve um desespero em descolar a discussão do partido e debitá-la somente na conta de FHC.

Ou seja, um tema de interesse nacional trazido à tona não de maneira programática, mas sim como projeto pessoal de um agente político isolado.

A democracia prega o respeito à diversidade, logo agrupamentos que visem impor ideias próprias estarão indo de encontro com esse preceito democrático. Por isso, tenho a impressão de que quanto mais a democracia se aprofunda, mais diverso serão os partidos. Esse processo, na minha opinião tem dois resultados mais claros.

O primeiro caminho seria os partidos se tornarem cada vez menores para manter o alinhamento ideológico. Nesse caso, haverá uma imensa quantidade de agremiações, mas elas serão tão pouco representativas, que irão se tornando, aos poucos, irrelevantes.

O outro caminho é o que estamos vendo no Brasil atualmente. Os partidos, para serem representativos, aceitam a filiação de qualquer interessado, independentemente de ele ter ou não afinidade ideológica com o grupo. Assim, os partidos tornam-se cada vez mais semelhantes, tornando desnecessária sua existência para a organização política da sociedade.

Qualquer dos dois caminhos leva ao fim dos partidos. A pergunta não é mais se os partidos irão desaparecer, mas quando isso acorrerá.  A questão é qual será a nova forma de organização a ser adotada. Esperemos!

Ronaldo e Palocci – a hora certa de parar

Este 7 de julho de 2011 será uma data lembrada por muito tempo. Não é sempre que no mesmo dia um ministro da Casa Civil pede demissão e o maior artilheiro da história das Copas do Mundo se despede da seleção.

Sem fazer juízos políticos, os dois personagens principais se assemelham por uma questão: parecem ter escolhido mal a hora de parar. No Brasil, atletas e políticos são figuras que atraem muita atenção. Quando estamos falando de um ex-ministro da fazenda e ex-ocupante da Casa Civil, essa exposição é ainda maior. Imagine então quando falamos de um jogador eleito três vezes o melhor do mundo no país do futebol?

Tanto Palocci como Ronaldo parecem ter passado do ponto certo de se aposentar. Ambos acabaram de certa forma prejudicando um pouco suas equipes. O Fenômeno contribuiu para a derrota corintiana na Libertadores e Palocci deu subsídios para que fisiologistas constrangessem o Governo.

Porém, é inegável que tanto o Corinthians, quanto o PT se beneficiaram da popularidade e do carisma dos dois recém aposentados. Outro ponto em comum e que, aparentemente, os dois se dedicarão a carreiras empresariais.

A comparação, no entanto, para por aqui. Pois, enquanto Ronaldo se despediu com festa no Pacaembu, Palocci saiu à francesa. Em um caso tivemos uma despedida, em outro um pedido de  demissão.No entanto, ambos já marcaram a história do país, cada a sua maneira.